Renato Alarcão. Brasil. 1970. Ilustrador. Artista Visual

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IMAGENS
 

Mais do que um caderno de viagens ou local de registros visuais sobre o cotidiano, os meus diários gráficos são um suporte de ilimitada liberdade de expressão, experimentação e descobertas. Embora eu goste bastante de desenhar - e o faça constantemente - tenho usado meus sketchbooks para algumas experimentações gráficas onde combino fotografias com colagens, “transferências” com solvente, caligrafia e também materiais tradicionais como lápis, caneta e tinta. Essa pesquisa pessoal começou depois de tomar contato com o trabalho do fotógrafo Peter Beard e mais recentemente, com os cadernos de Dan Eldon. Do tempo em que vivi em Nova York, mantive viva a prática de rabiscar nos cadernos: nos metrôs, no zoológico, nas calçadas do Chinatown, nas alamedas do Central Park, nas barcas do rio Hudson ou na praça Union Square onde as pessoas se reuniram em peregrinação nas semanas após os atentados às torres do World Trade Center. Na School of Visual Arts, nossas aulas de desenho eram chamadas “Drawing on Location”, e refletiam exatamente esta proposta de desenhar a vida fora do estúdio. O tema em constante movimento nos obrigava a desligar o lado analítico e racional, e usar a intuição para capturar a essência do momento. Imagine o desafio de desenhar no metrô, com aquele barulho metálico infernal, gente em volta, a luz inconstante, difusa, as goteiras no pescoço...O trabalho sob esta multiplicidade de influências incorpora características bem peculiares. É justamente por terem sido criados em um contexto tão cheio de ruídos, que estes "desenhos em locação" não devem ser comparados àqueles outros nascidos no conforto do estúdio. E nem se trata de uma questão de "melhor ou pior", já que são universos diferentes. Interessante notar que deste meu trabalho em diários gráficos vem emergindo um estilo pessoal, mais dinâmico, livre e que incorpora as imperfeições do processo.

O entusiasmo com esta pesquisa visual nos cadernos levou-me a elaborar um workshop onde todas estas práticas são estimuladas. Percebo hoje um ressurgimento na tradição dos diários gráficos, com muitos jovens artistas de caderno à mão, onde registram suas impressões muito pessoais sobre o mundo. Em suas páginas encontramos verdadeiros fragmentos do cotidiano: recortes de jornais e revistas, combinações de fotos com texto, colagens de objetos encontrados ao acaso, tickets de cinema e metrô, barbante, rótulos e maços de cigarro, selos antigos, etc.

Digo sempre que é uma boa idéia desenvolver o quanto antes este hábito de manter um sketchbook sempre ao alcance da mão. Quem espera encher seu caderno com obras primas cheias de pensamento e planejamento prévios, pode se frustrar. Aquelas páginas são sobretudo o local de registro de diversos processos criativos nascidos da intuição, do risco, do acaso e dos “acidentes felizes”.