José Assis. Lisboa. 1954. Artista plástico e professor.


IMAGENS
 

O desenho oculto.

Ninguém entende ou compreende alguns dos meus desenhos. Só eu. Às vezes são apenas aquilo que são ou aparentam – apenas representações de alunas ou alunos, de pessoas, ambientes ou objectos que tomo como modelos. Outros são o reflexo do meu estado de espírito ou da minha alma, se quiserem.

Há quem escreva, há quem fale, eu desenho. E alguns desenhos constituem eloquentes diálogos ou extensos parágrafos de um alfabeto desconhecido e sempre diferente.

Por vezes são estranhos e elaborados; outras vezes apenas registos subtis e delicados. Surgem muitas vezes – ou quase sempre – de riscos sucessivos que começam a definir formas e volumes, e me conduzem, sem que eu me preocupe muito com o resultado final. São desenhos que associo muitas vezes ao tédio. Afinal o resultado final é o que menos me interessa. O que realmente me importou foi o acto de pensar e o facto de «automaticamente» serem um conjunto de formas, mais ou menos definidas, que no final fazem para mim todo o sentido. Só para mim.

Lembro-me quase sempre do que estava a pensar enquanto desenhava. Às vezes o próprio desenho é tão evidente para mim que quase me apetece destruí-lo. Outras vezes não: apenas no fim o nexo do desenho em que estava a pensar se estabelece e então tudo se torna mais claro. Ou então acontece ser conduzido, a partir do desenho, a outro patamar de reflexão – a um outro pensamento. Acontece que, nessa situação, os desenhos se tornam quase pretos e tão difusos que as formas se perdem.

Há dias em que não me apetece desenhar. Ultimamente tenho datado os desenhos, o que raramente fazia antes, embora consiga datar, por anos, conjuntos de folhas soltas de reuniões ou diário gráficos.

Nesta fase, nos últimos anos, essas sequências constituem um diário íntimo. O que mais me tem intrigado, nalguns destes desenhos, é que para além de me servirem como complemento de reflexões, constato a dissociação aparente da reflexão com a autonomia do acto do desenho, em si, que é o de representar por vezes volumes – assemelhando-se a projectos de escultura a querer sair da folha plana e lisa. Se calhar pedem-me outro formato de desenho.