Miquel Barceló. Espanha. 1957. Pintor

IMAGENS
 
“Os Ciclos Terrestres” (excertos) de Enrique Juncosa do catálogo
da exposição “Miquel Barceló. Obras sobre Papel. 1979-1999”. 1999. Madrid

Tradução livre do castelhano


O tema principal da obra de Miquel Barceló é o passo inexorável do tempo. Isso é o que reflecte a sua obsessão pela transformação incessante da matéria ou a sua frequente encenação dos quotidianos mistérios da vida e da morte. O passo do tempo é, sem dúvida, o que evocam as suas imagens de sedimentos e germinação, de desertos e glaciares, de deltas, praias, oceanos e rios. Neste sentido devemos entender também os seus particulares emblemas da memória – os museus, as bibliotecas, os cinemas – ou as suas referências aos rituais diários – o trabalho no atelier, o sexo, os restaurantes e as cozinhas. O passar do tempo é, efectivamente, o tema dos seus devastadores autorretratos e o dos seus devastados retratos de amigos, os quais não perseguem nem a verosimilhança, nem a beleza. Barceló, além disso, pintou montanhas de alimentos, ovos e animais mortos, cruxificações pagãs, veículos sobrecarregados e travessias do deserto. Tudo reflectindo sempre a conclusão terrível da existência, e um estado de ansiedade permanente que o leva a apoderar-se com imagens de tudo o que o rodeia. Barceló converte o mundo, desta forma, numa perspectiva autobiográfica e familiar de fenómenos e coisas – algo assim como um diário – cuja natureza é ora reflexiva ora mágica, rebelde e celebratória.

O desenho é, neste sentido, dada a sua natureza confessional e espontânea, o instrumento primordial do seu trabalho. Não constitue talvez o aspecto mais ambicioso da sua obra, como é o caso entre pintores, mas por cima do seu inegável virtuosismo, que o situa, no mínimo, à mesma altura que a sua pintura no que se refere a ganhos estéticos, permitindo aproximarmo-nos do núcleo das suas preocupações com claridade luminosa. Os desenhos ilustram também, e com particular facilidade o seu espírito inovador no que se refere a questões técnicas e de utilização de materiais.

Durante os primeiros anos os desenhos permitem-nos constatar um grande número de ideias em ebulição, algumas das quais não se desenvolverão senão mais tarde, enquanto que outras se converterão em constantes. Nos desenhos de 1980, por exemplo, aparecem já os nus e os animais que irão povoar as suas telas pouco depois, como deixará reflectido nas suas numerosas e provocadoras exposições de 1982.

Outras ideias, como as das pinceladas gigantes ou a dos quadros realizados numa só pincelada, voltam a aparecer nos quadros brancos de finais dos anos oitenta. Então Barceló idealizou um sistema de pincéis atados que é uma clara continuação de ideias anteriores:

“Os meus desenhos de peixes desta época partiam também de um só golpe de pincel. Utilizava várias cores no mesmo pincel. Um pincel de 15 cm de largura. Então recolhia azul escuro, azul da prússia por cima, um pouco de azul ultramarino no meio, água e um pouco de amarelo por baixo. De uma só pincelada, é um pouco como a pintura chinesa. Todavia gostaria de quadros que fossem feitos de um só gesto, ainda que fossem muito grandes, mas num só gesto, enorme, como uma paisagem. Pintei paisagens que são feitas de um só gesto, ou montanhas de um só gesto, ou pintar um cavalo de um só golpe de pincel, grande. É uma metáfora mas também é muito literal. Era só uma pincelada e logo lhe punha as barbatanas ou a boca”.

Gosto de inventar técnicas que servem para pintar. Não as exploro muito, servem para o que servem e já está. O efeito do papel negro rasgado sugeriu-me o fogo. O tema era dado pela técnica. Coisa que ocorre a meio. Primeiro faço algo e logo penso que parecem as escamas de um peixe. Então pinto o peixe.”

Umas meras pinceladas sugerem raízes, sementes ou rebentos, falam-nos do potencial da pintura para criar imagens e metáforas, vida ao fim e ao cabo. A relação com a pintura chinesa, em especial com figuras como Chu Tah, o grande mestre do sec.XVII que pintou animais e plantas a partir de manchas de pintura, é aqui evidente. Barceló persegue a evocação a partir do mínimo. Esta inclinação metafísica, sem dúvida, não se perde com elucubrações afastadas da realidade. O lúdico e o irónico estão sempre muito perto.

Em 1988 Barceló viajará pela primeira vez a África. Será uma primeira grande viagem, de uns oito meses, na qual cruza o Sahara desde Argélia até chegar a Gao no Mali, onde ficará a trabalhar. É o início de um fascínio, e desde então tem viajado com periodicidade anual pela África Ocidental, visitando o Senegal, Burkin Faso, Nigéria e Costa do Marfim. Tem uma casa e um estúdio no País Dogón, como é sabido, e viveu também em Ségou, nas margens do rio Níger. Em qualquer caso na primeira viagem desenhou muitíssimo.

O primeiro grupo foi realizado em Ghardaia (Argélia):

“Têm que ver com os quadros que tinha pintado então. Estas formas de cabaças, figos, são as mesmas formas que as montanhas do fundo. O camelo com boças converte-se quase numa escultura. O desenho da brochette está intitulado A história do Sahará. No Sahará não há nada, mas está tudo cheio de história fosilizada. Gostava desta ideia da história como imagem mourisca. Também pintei tapetes e rótulos. É curioso como tudo se converte em exótico… desenhei muitas pedras. Ao pé de Tamanrasset o deserto está cheio de pedras. Muito quadros de pedras vêm daqui”.

O grupo de pequenos desenhos de cores realizados depois em Gao reflecte cenas da vida quotidiana – mulheres no mercado, canoas no rio – e objectos quotidianos imprescindíveis – tabaco, materiais para pintar, alimentos. Estes desenhos permitem-lhe familiarizar-se com o seu ambiente.

“Instalei-me e comecei a pintar quadros grandes. Mas a casa era muito pequena…..Era um problema. Como não tinha sentido e era muito excitante o que se passava lá fora, pensei desenhar o que via utilizando cores. Pensei no mercado… Depois deste grupo pensei em fazer uns guaches um pouco maiores. Desenhava bastante por dia. Não pintei mais quadros nesta primeira viagem. Estive desenhando e escrevendo durante sete ou oito meses”.

Encontramo-nos com imagens de pescadores, canoas, animais bebendo e banhistas – na realidade gente que se lava. Por último, entre os guaches de Gao, destacar também as naturezas mortas: máscaras africanas, craneos, naipes, facas e coisas partidas, escorpiões, joias e fósforos acesos. Uma série de objectos que se repetem, flutuando no centro dum espaço irreal, ou pictórica, e adquirindo outra vez ressonâncias magnéticas.

“Tinha, um pouco como Morandi, três ou quatro objectos: um crâneo de macaco, um crâneo humano, uma máscara – a mesma de sempre – alguma cebola, dois ou três peixes ….e assim saíam as tabernas. (…) os desenhos de cortes também têm que ver com os buracos. Petit coupure é uma coisa negra que por dentro é branca. Trata-se de mostrar o que há dentro das coisas. As pirogas também têm que ver com isso, são como rodelas de melão, brancas por dentro e negras por fora”.

O ponto negro converte-se na imagem mais característica do artista. Trata-se de um elemento mínimo mas capaz todavia de sugerir muitas coisas – uma semente, um insecto, uma cabeira, uma cabeça – dependendo da escala.

No Inverno de 1991 e 1992, Barceló visita África em duas ocasiões. Numa delas corre uma boa parte do Níger numa piroga, documentando o trajecto em diversos cadernos. Passa também uns dias, ao princípio da viagem, na costa da Costa do Marfim, onde realiza a série de desenhos O Golfo da Guiné. Estas obras remetem a algumas das inspiradas pelos glaciares ao documentar os movimentos naturais, neste caso os das marés. Na primeira viagem abandonará um caderno luxuoso de desenho, que lhe haviam oferecido e que não gostava, num terminal. À volta retoma-o. O resultado é Gogoli(1991-92) um dos seus cadernos mais espectaculares.

“Voltei a África, quando faz muitíssimo calor, para assistir a uma grande cerimónia funerária que se celebra cada 15 anos. Retomei o caderno e comecei a desenhar segundo me sugeriam os buracos formando uma espécie de sequência narrativa. Os buracos são cornos e caveiras, vão da vida à morte. Umas vezes cartografias e outras figuras. Ía improvisando, mas quando agora vejo o livro parece-me uma novela repleta de sentido. Começa delimitando um lugar e acaba sendo um pouco como a orografia do País Dogon: com as casas, as aldeias, os caminhos, os mercados, ou como enterravam os mortos nas covas e nos buracos”.

(…) escolhia pedras um pouco à sorte, e gretas, e depois utilizava as suas formas para pintar coisas – beringelas, tomates, pimentos, limões, peixes e às vezes figuras – depois desenvolvia-os nalguns maiores, como o Le Tas (1994). Gosto dos sapatos velhos, que já não servem para nada mas que caminharam muitíssimo”.

De 1996 são também uns desenhos que documentam uma curta viagem ao Egipto e uma série de estudos realizados no museu Glimet de Paris que nunca foram expostos. Estes, nos quais vêm-se estantes repletas de esculturas orientais ligam com os inventários de suas próprias cerâmicas que encontramos nos seus cadernos desta data.

A viagem a África em 1999: De novo encontramo-nos sobretudo com cenas dos mercados.

“Gosto muito dos gestos das pessoas vendendo e os gestos das pessoas olhando e comprando. É todo um ballet”.

Mas não são simplesmente imagens pitorescas numa tradição orientalista. Os produtos que se vendem no mercado estão representados mediante pontos de cores sobre rectângulos. São como pinturas abstractas que se referem à origem da pintura no mundo, na terra.

“Em África não se vende em cima de mesas, mas quase sempre em cima de esteiras no chão, o que me recorda a minha situação com o quadro no chão, e este recoberto de materiais e modelos. Essas manchas de cores sobre rectângulos vêm a ser o mesmo”.