Guida Casella. Portugal. 1974. Artista Plástica. Ilustradora de Arqueologia.

www.archil.blogspot.com

IMAGENS
 

Interessa-me sobretudo a temática selectiva nestes cadernos. Desenho artefactos, algo que já foi a criação artística de alguém. Isso dá-me uma certa sensação de imortalidade…Ou de andar pela terra há muitos anos. Desenho objectos inanimados, mas que ganham aos meus olhos, ou à minha sensação de os desenhar, uma dimensão quase mística.
Disegnare è preghiera.
Só sei que certos objectos ou certos sítios produzem em mim um efeito de curiosidade. Alguns têm essa espécie de ‘imanência’ ou ‘frequência’ que para mim resulta mais atractiva. Podia também dizer uns serem mais ‘pitorescos’…Suitable for being pictured…Outros não.
Gosto especialmente de desenhar o Património Cultural, que é muito ‘desenhável’. Há um lado de misterioso, de curioso nestes objectos, porque vêm de há muitos anos. Ás vezes encontram-se coisas tão estranhas, tão poderosas, ou simplesmente tão belas, que produzem em nós grande satisfação em desenhá-las, como que podendo assim roubá-las do museu e transportá-las sempre connosco.
Outras parece que soam a arquétipos ou produzem um certo ‘acorde estético’ que nos dá vontade de criar novamente algo com base na experiência estética que tivemos. Esse acto criativo aparece não se sabe de onde, mas o que é certo é que pode ser despoletado pela experiência de observar, de fruir, um objecto de um Museu.
Por vezes tenho a presunção de pensar que os Museus e a Arqueologia só existem para ser desenhados.
Como trabalho em Desenho Arqueológico para fins Científicos e Educativos, estes diários gráficos permitem-me uma experimentação permanente de técnicas ou soluções visuais que posteriormente podem ser utilizadas em publicações. Sim, estes meus cadernos são uns imensos Atlas de referência.
São também um âide-memoire: constituem uma leitura crítica de inúmeros museus e sítios de interesse histórico visitados por mim, e por vezes incluo neles folhetos, postais, ou recortes de material gráfico desses locais.
O diário gráfico é sem duvida uma ferramenta de trabalho, um sítio onde acontecem coisas, um palco onde vemos coisas a acontecer e donde podem surgir novas coisas.
Gosto de coisas velhas, antigas, fora de moda…Porque gosto de ver como se poderia reformulá-las e vê-las serem novidade de novo. E isso é possível.
As coisas do passado são como as coisas do futuro: parecem-nos altamente improváveis…