João Catarino. Portugal. 1965. Professor. Ilustrador. Designer gráfico

http://desenhosdodia.blogspot.com/

IMAGENS
 

Os meus Diários Gráficos

Foi há 20 anos que apanhei o “vício” e como grande parte dos vícios se apanham com as companhias e nas escolas, fui também eu contaminado pelos meus amigos da Escola de Belas Artes de Lisboa do ano anterior ao meu, que já andavam armados com os tais livrinhos de encadernação reforçada. Todos tinham passado ainda pelas mãos de Mestre Lagoa e, ao que parece, com a lição bem estudada. Foram discípulos perfeitos e contagiaram-me essa vontade permanente de fixar as coisas, as pessoas
e os lugares, naquele formato de bolso que de início, me pareceu de dimensões ridículas. Em breve, porém vi que o mundo parecia caber ali.

Desde miúdo que me fechava no silêncio dos desenhos, enchia cadernos com histórias de viagens que imaginava fazer de carro pelos continentes fora, desenhava, quase obsessivamente na ânsia de concluir mais um caderno, mais uma história e percorrer mais um continente.
Os diários gráficos vieram muito mais tarde estabelecer a continuidade da ilusão
da viagem permanente. De facto qualquer trajecto por mais curto que seja, ganha “sabor a viagem” quando se vai “armado” com o tal livrinho, paramos para roubar um tempo à correria da rotina, quando fixo no papel um pouco dessa mesma rotina, deixa de ser rotina.

Não os uso propriamente como ferramenta do meu trabalho. Não são intencionalmente para recolha de referências ou apontamentos. Também não penso que sejam trabalho em si. Exprimem talvez o lado mais gratificante da minha actividade e são sempre um suporte documental de vivências quotidianas. Essencialmente permitem a portabilidade do desenho. Levar o desenho para onde
se vive, fora e dentro, em todos os lugares. Registo o que me motiva, conquisto
a oportunidade de olhar devagar, trazer para o caderno percursos de um movimento atento e concentrado, mergulhar profundo nas formas, deixar poder encantar-me por isso, acho ser um privilégio e resulta numa enorme satisfação.

Depois vêm a memória, a colecção destes diários já gastos, com as marcas do tempo, intensificam o carinho por eles. Retirar da estante um exemplar com alguns anos faz-me reviver a luz dos lugares, as sensações e as cores, é voltar lá, viajar desta vez agora também no tempo. São uma forma de pautar a vida e de organizarmos a nossa própria história, para além, de um grande companheiro de viagem.

João Catarino