Jorge Colombo. Portugal. 1963. Ilustrador. Designer. Desenhador de BD. Fotógrafo

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IMAGENS
 
“A Cidade Retrato” (excerto) de João Paulo Cotrim do livro-catálogo “Fullerton” de Jorge Colombo 2000. Ed.Bedeteca de Lisboa. Lisboa


…São instantes congelados, onde a acção é mínima, não vai além de uma cabeça que se volta ou um corpo que quase corre. A volúpia está na descrição do mobiliário urbano, nos recantos interiores dos aviões, no assinalar das bicicletas e nas linhas dos automóveis. Encontra razão de ver na sobreposição das arquitecturas, nas combinações inusitadas das esquinas, no aconchego das lojas, no seguimento de um muro, na dança das luzes. “Mesmo quando não tenho nas mãos um bloco e uma caneta, fachadas e telhados entram-me pelos olhos, que se perdem no labirinto das escadas de incêndio, na altiva solidão das caixas de água, nas vertigens de tijolo e vidro antigo, ou nas guaritas desconjuntadas dos parques de estacionamento.” (in Marie Claire. 1994)

É um registo deambulante, de vagabundo atento e obsessivo, que se torna mais explicitamente diarístico nos interiores das casas, onde ressaltam os enquadramentos, os jogos das linhas em descrição literária das intimidades, em harmonia, ainda que estejam a contar desarrumações. São de novo cenas congeladas do quotidiano, por vezes à espera dos actores, outras desertas pela sua partida, outras ainda dando simplesmente conta dos vestígios da sua passagem. Afinal, um passo mais na direcção dos retratos-rosto. Só neles se vislumbram momentos outros que não de melancolia deleitada na observação. Só pelo rosto dos amigos e transeuntes se chega a outros sentimentos e opiniões. É que a cidade de Jorge Colombo é uma superfície tranquila, haikus que só pelo esforço de leitura revelam as turbulências que alimentam qualquer urbe. “Tudo me chega com memórias agarradas, com mossas do passado: as venerandas cidades americanas têm ruas coçadas, e nenhum pormenor condiz. Há sempre um curto-circuito visual a crepitar, uma incongruência provocante entre intenções e resultados”. (in Marie Claire. 1994)

O novo projecto é uma evolução de caçador, que busca o imediato e assume de vez o cidadão enquanto rosto da cidade. Trata-se de The Dailies. “Todos os dias assinalo nas ruas de NovaYork uma personagem interessante, tomo notas apuradas da postura e da indumentária, e faço em casa um desenho rápido. Página a página, começo a formar um retrato colectivo do nova-iorquino médio com bastante interesse.”


Artigo de Laura Jin Joo Lambert saído no The New York Times de 4 de Março de 2001
“A Alquimia do ilustrador transforma a vida de todos os dias em obras de arte.”

Tradução livre do inglês

Jorge Colombo mergulhou no Strand Bookstore (Livraria em NovaYork) no preciso momento em que a neve começara a cair e deambulou pelas alas, os olhos dardejando em volta em busca do tema perfeito. Passou por um homem de barba, vestido com um casaco de tecido escocês. Durante uns instantes, observou uma rapariga com uma tatuagem e calças de ganga justas. Nada disso servia.

Depois viu-a, uma mulher magra, de meia-idade, envergando uma imensa camisola vermelha e calças largueironas, debruçada sobre uma mesa a estudar os títulos dos livros. O sr. Colombo enfiou a mão no casaco, tirou do bolso interior uma caneta e um bloco e começou rapidamente a desenhar.

Em menos de um minuto, a insuspeita mulher tornou-se o fascículo 5 de Fev. dos Dailies (Diários), o projecto continuado do sr. Colombo para a web. Ao longo de cinco anos, o sr. Colombo, um ilustrador português autodidacta, esboçou um desconhecido por dia. Transforma os esboços em aguarelas do tamanho de postais, que data e insere no seu website, www.jorgecolombo.com . Visto em sucessão, os Dailies tornam-se um retrato colectivo de vulgares nova-iorquinos vistos pelo olhar de um outsider/estranho cultural. A normalidade, diz o sr. Colombo, é o que lhe atrai a atenção.

O primeiro Diário está datado de 22 de Fev. de 1999. Nesse final de tarde, o sr. Colombo espiou um homem vestido com um impermeável e uma fedora (tipo de casaco?)) que subia energicamente a Mulberry Street, com um saco de papael pardo na mão, possivelmente proveniente de uma padaria. O sr. Colombo esboçou-o rapidamente, anotando a forma do casaco e a inclinação do chapéu. Anotou especialmente os olhos do homem, o modo como se via a córnea branca, enquanto se esforçava por ver o que ficava por trás de si, como se estivesse a ser seguido.

“Será que roubou os cannolli (tipo de pastéis), disse o sr. Colombo com uma gargalhada.

A possibilidade de uma tal narrativa é o que puxa o sr. Colombo para o seu tema. Compara os seus diários ao trabalho do realizador francês Jacques Tati. “O tio Jacques é um dos meus santos padroeiros”, diz o sr. Colombo. “Ensinou-me que é muito mais divertido sermos nós a inventar a história”.

Tati é uma de uma grande família de figuras inspiradoras que ganharam afectuosas denominações como “tia” ou “tio”. Há a Tia Joan (Didion), o Tio (Welles) e o Tio David (Mamet). A família portuguesa do sr. Colombo inclui o Tio Vítor (Mesquita), o ilustrador que foi o jovem Jorge, e o Tio Mega (António Mega Ferreira), que lhe deu a sua primeira oportunidade como ilustrador.

De volta ao seu apartamento de East Village, o sr. Colombo senta-se à secretária com o esboço do Strand. A rotina é familiar. Volta a desenhar as linhas fortuitas do esboço até captar o seu Diário com o mais reduzido número de linhas perfeitas. Depois colora a imagem com aguarelas e digitaliza-a para ao seu Mackintosh.

De volta à rua, o sr. Colombo desencanta um homem calçado com botas de trabalho e uma gabardina amarelo-fluorescente. O casaco reflecte a neve acabada de cair, criando um lívido halo. Com o seu Diário já desenhado, o sr. Colombo toma nota, dizendo tranquilamente para si mesmo: “Não é espantoso?”.