Eduardo Côrte-Real. Professor.

IMAGENS
 

Neste momento tenho três blocos abertos. Um diário distribuído por objectos de vários tamanhos. Um muito pequeno, um médio pequeno e um médio. Aproveitei para contar quantos é que já estão preenchidos: oitenta e nove. Desde uns muito pequenos que se compram na Base Aérea das Lages que me trazia um aluno açoriano até um daqueles A2 Schizzo Canson. Uma média de 60 folhas por bloco. 5340 Desenhos dos quais cinco mil, sem exagero, foram e são desenhos de observação. Raramente uso os blocos para esboçar, tomar notas ou embarcar em veleidades pictóricas ou criativas. Cinco mil desenhos de observação lineares, despojados, acho eu, sem o mínimo destino ou interesse artístico.

Comecei a usar blocos em 1992, ano em que aos trinta anos fui chamado para a tropa. Aquele bocado surrealista da minha vida teria que ficar registado.

Faz este ano de 2006 vinte anos que comecei a ensinar Desenho na Faculdade de Arquitectura. Só passados seis anos do início é que comecei a sentir que necessitava de guardar as coisas. Antes desenhava e deitava fora ou guardava para depois deitar fora.

Muito bem, de 1992 a 2006 são catorze anos, o que dá mais ou menos 390 desenhos por ano… O que torna isto tudo, mais ou menos, um diário gráfico. Mas um diário gráfico não é bem um diário. Não desenhei no 11 de Setembro (nem mesmo no deste ano), não desenhei no dia da final do campeonato da Europa de Futebol. Acho que nunca desenhei no dia de Natal… ou na passagem do ano. Num verdadeiro diário escrito apareceriam menções aos nascimentos das minhas filhas, neste “diário” normalmente não aparecem bebés, surgem já andantes e pensantes. O diário não é narrativo, não se organiza como um história relatada pelos seus factos mais importantes. Quase todos os restaurantes onde me sentei em viagens têm um desenho. É um registo de preguiças, pausas, ócios. Uma história de nada. Excepto quando preparava a dissertação de doutoramento. Decidi que iria dispensar fotografias. Desenharia todos os edifícios que iriam servir de ilustração. De facto fiz mais de 800 desenhos em três meses de Itália, 1 mês e meio de Inglaterra e tempo indeterminado em Portugal para aproveitar umas seis dezenas que acabaram por ser publicados no livro “O Triunfo da Virtude, As Origens do Desenho Arquitectónico” da Livros Horizonte. Fazia aqueles desenhos quase como uma rotina cega, também sem muito sentido porque ainda não sabia sequer quais é que iria utilizar. Desse tempo recordo um dia em Veneza em que uma senhora alemã de muita idade e mais estilo e cultura me disse, na mesa de uma esplanada: “Devia usar uma ponta de prata. Para o seu tipo de desenho, o correcto deveria ser uma ponta de prata.” Passados dias em Vicenza uma outra senhora, saída dos anos sessenta, sussurrou-me enquanto eu desenhava a Basílica Palladiana: “Devia antes usar uma grafite grossa…”