Eugène Delacroix. França. 1798-1863. Pintor

IMAGENS
 
“Viagem a Marrocos. Aguarelas” de Alain Daguerre de Hureaux. 2000. Bibliothèque de l’image. Paris

Tradução livre do francês


A técnica da aguarela, na fronteira das artes do desenho e da pintura, conheceu a sua época de glória durante o séc.XIX, fundamentalmente em Inglaterra, com a criação da Watercolour Society a partir de 1804. Pela sua rapidez de execução e economia de meios, transformou-se na técnica previligiada dos pintores viajantes. Mas, podemos considerar Delacroix como um deles? Certamente que não. Com excepção de uma breve estadia em Inglaterra durante o verão de 1825, da sua viagem ao norte de África durante o primeiro semestre de 1832 e de curtas estadías na Bélgica e na Holanda (1839 e 1850), Delacroix dividiu a sua vida entre os seus diferentes ateliers e a sua propriedade de Champrosy, entre a sua actividade de pintor e a de escritor.

Breve alteração das estritas normas de vida a que se impunha Delacroix, e que os seus diários dão numerosos testemunhos, a viagem a Marrocos parece ser o resultado de uma oportunidade que o pintor não deixou passar: Tomou a decisão precipitadamente em Dezembro de 1831. Por intermédio da Senhora Marz, cujo amante era Charles Mornay, Delacroix fez com que o aceitassem como membro da embaixada que aquele devia desempenhar em Marrocos a fim de assegurar-se das intenções do Sultão ante os acontecimentos de Argélia. No espaço de alguns meses Delacroix realiza vários milhares de aguarelas, soltas ou às vezes reunidas em cadernos (de sete só se conservam quatro no Louvre e em Chantilly). A 25 de Janeiro de 1832, pouco depois da sua chegada, ele escreveu ao seu amigo Pierret: “Desembarcámos no meio do povo mais estranho (…) teria que ter vinte braços e quarenta e oito horas por dia para dar uma ideia de tudo isto (…) Neste momento sou como um homem que sonha e vê coisas que teme que lhe escapem”.

Registados a grafite, de maneira a precisar aqui uma indicação de cor, ali uma impressão que deseja recordar, estes desenhos são executados a aguarela a partir de um esboço preparatório a lápis negro. Aparecem como anotações fugídias que constituem, ao fim de meses, um extraordinário album de viagem que o pintor utilizará até ao final da sua vida. Assim, em numerosas composições posteriores, realizadas já em França, às vezes muito tempo depois do seu regresso, encontramos detalhes tomados do natural: a aguarela “Uma corte em Tanger” serve, desta maneira, com grande fidelidade, à definição do contexto arquitectónico do quadro “As bodas judias” que se encontra no Louvre (salão de 1841).

A prática da aguarela, a que o iniciou, durante a sua juventude, o seu amigo Charles Soulier, conhecia um importante auge durante a década de 1820, no salão de 1824, onde Delacroix expõe a “Cena dos massacres de Schio” (Louvre), triunfam quatro artistas ingleses: Thomas Lawrence, que recebe a Legião de Honra do grau de cavaleiro, John Constable, Copley Fielding (irmão de Thalès, amigo íntimo de Delacroix) e Richard Parkes Bonington. Este último notável aguarelista, transformar-se-á no amigo de Delacroix, com quem partilha um atelier durante alguns meses, antes de empreenderem juntos uma viagem a Inglaterra. Delacroix realiza então alguns maravilhosos estudos a aguarela do campo inglês, ainda que excepcionais na sua obra, apaixonado pela pintura histórica, permanece fiel à sua formação no atelier de Guérin, e porá em prática a técnica da aguarela que porá ao serviço desta última. Não resulta surpreendente então, que um dos primeiros grandes exitos de Delacroix com a aguarela tenha sido um esboço para as “Cenas do massacre de Scio”. A aguarela, pela rapidez da sua técnica, a sua aparente espontaneidade, o seu carácter alusivo, aparece como o instrumento ideal para traduzir o primeiro pensamento. Nestas primeiras obras a utilização da aguarela não constitue senão uma etapa na elaboração da obra final e carece de carácter de obra autónoma que será dado posteriormente.

O descobrimento e a prática assídua da aguarela leva a uma evolução profunda do ofício de Delacroix: depois do seu regresso de Marrocos, experimenta novas técnicas pictóricas, procurando encontrar a fluidez dos efeitos, as transparências e a ligeireza que a água permite. Para isso utiliza o verniz em que se diluem os pigmentos (vê-se na “Fantasia” de Montpellier, inspirada numa das dezoito aguarelas oferecidas ao Conde de Mornay) provocando assim alterações na capa pictórica lamentavelmente irreversíveis.

Ao mesmo tempo, o descobrimento da luz de África do Norte, a maneira como essa luz modifica as formas e interactiva com o tom local mediante o reflexo, leva-o à conclusão de que a luz e a cor não podem ser dissociados: “Não existem radicalmente nem claros nem escuros. Existe uma massa de cor para cada objecto, que se reflecte de maneira diferente em todos os seus lados (…) ali radica toda a compreensão da cor na pintura”. (diário, 5 de Maio 1852). A tradução destes reflexos implica uma fragmentação da pincelada, em que Seurat e Signac (De Delacroix ao Neoimpressionisnmo, 1899) verão as premissas das suas próprias buscas.

Outro avanço decisivo é o “descobrimento” do Oriente. Com efeito, inclusivé antes da viagem a Marrocos, os quadros orientalistas de Delacroix – desde as cenas do “Massacre de Scio”, inspirados na guerra da independência grega, o “Sardanápalo” – ou as suas composições literárias inspiradas na obra de Byron, propõem uma visão do Oriente, alimentada pela história e a literatura, que preexiste o seu descobrimento, em 1832. Os meios artísticos e literários da restauração compartem amplamente o gosto pelo Oriente: em 1829, no prólogo do seu “Orientais”, Victor Hugo constata que “Oriente”, seja como imagem ou como pensamento, transformou-se numa espécie de preocupação geral, tanto para as inteligências como para as imaginações.

Sem dúvida, o descobrimento in situ de Marrocos actúa como um revelador. Pouco antes do seu regresso a França, Delacroix escreve ao crítico Jal: “Os romanos e os gregos estão aqui à minha porta. Tenho-me rido bastante dos gregos de David, à parte, por certo, do seu sublime pincel. Agora conheço-os; os mármores são mesmo verdade, mas há que saber lê-los, e os nossos pobres modernos não têm visto neles senão hieróglifos (…) Roma já não está em Roma” (Tânger, 4 de Junho de 1832). Desta maneira, o descobrimento de Marrocos volta a mergulhar e a reanimar a alma de Delacroix na fonte de uma antiguidade que o pintor situa no coração do seu panteão artístico. Não lhe surge pelos teóricos do neoclassicismo nem compreendeu por seu intermédio, descobre-o ele próprio na sua confrontação com a civilização oriental: “É belo, é como no tempo de Homero!”, escreve ao seu amigo Charles Cournault.