Filipe Leal Faria. Portugal. 1976. Arquitecto.

IMAGENS
 

Desenhar a espera

A espera é uma contingência de todas as vidas, durante toda a vida.

Na escola pela pessoa que nos vem buscar, pela colega de carteira gira, pelo autocarro que nunca mais chega, as férias de verão, pela namorada, ao telefone, o é só um momento , nas repartições públicas com dez senhas à nossa frente, pelo fim de textos aborrecidos, enfim, se juntássemos todo o tempo que passámos à espera de algo, rapidamente chegaríamos à conclusão que esperamos por demasiadas coisas durante demasiado tempo da nossa vida. Afinal o tempo é o único bem impossível de adquirir...

Mas a espera é inevitável! Parece que está sempre à espreita para a qualquer momento nos assaltar, roubando-nos o único bem inegociável, que de certeza seria mais bem empregue fazendo qualquer outra coisa que não esperar. As esperas, como os homens, podem ser ansiosas, calmas, irritantes, compreensíveis, entediantes, animadoras, desilusões, surpresas, vãs ou profundas, a verdade é que são omnipresentes na vida da maior parte das pessoas.

Se o leitor resistiu até agora, estará a pensar eu a achar que estava num site de desenhos e vem-me este indivíduo fazer filosofia barata sobre a espera? . Pois é, é que foram justamente as esperas que me introduziram no vício de andar sempre com um bloco e um riscador no bolso. O desenho da espera deixa pouco espaço para a irritação, obriga a focar a atenção e por vezes ficamos de tal maneira absorvidos que nos esquecemos do que esperamos, passa-nos tudo ao lado. Desde que entrei neste submundo, já lá vão doze anos, todos os dias desenho qualquer coisa. Ao príncipio era só o que me parecia nobre e importante, com o passar dos anos comecei a ser menos exigente nos temas, hoje em dia dou por mim a desenhar a repartição de finanças onde aguardo a minha vez, ou a magnífica paisagem dum terminal ferroviário, a sala de espera de qualquer consultório, enfim, já não consigo evitar o desenhito. É mais forte do que eu. E sente-se a descriminação! Olha, lá tá ele armado em artista! Vai mas é trabalhar malandro! Ainda por cima nem tá nada parecido! Tira uma fotografia pá! são comentários de quem nunca percebeu nem tentou, a espiral de quem entra no mundo do desenho. Acho que vou acabar a ver tudo como pontos, linhas e manchas e deixar de ver a realidade como ela é para os outros, mas o desenho é já uma parte inalienável do meu mundo. E tenho um enorme pecúlio de pontos , linhas e a manchas...

Lisboa, 20 de Outubro de 2006

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