Pedro Fernandes. Portugal. 1978. Geólogo. Ilustrador

IMAGENS
 

Conversa gravada

Acho que sempre desenhei. A minha mãe ainda tem para lá coisas desde os meus três anos, portanto isto vem de longa data. Desenhava em todo o lado, depois fui evoluindo, comecei a fazê-lo sobretudo nas margens dos cadernos ou fazia balões nas ilustrações dos livros de História. No 9ºano tive que escolher entre Artes e Ciências e aí escolhi Ciências e pus um bocado de parte a Ilustração. Estive muito indeciso o que aliás ainda acontece (risos). Não consigo dissociar as duas coisas. Mais tarde, por volta de 1995 ou 1996, comecei a desenhar novamente com alguma frequência. Além de folhas e folhas cheias de desenhos, dei comigo a andar com um caderno de apontamentos de má qualidade, com as folhas muito finas, não ainda um Diário Gráfico, mas algo onde mantinha alguma cronologia e alguns desenhos avulsos que, ainda hoje, ao vê-los me permitem lembrar-me com bastante nitidez de algumas coisas que se passaram naquele tempo. Tinha uns 18, 20 anos e já andava na Faculdade. O Diário Gráfico como um objecto mais formal surge um pouco depois, coincidente com a altura em que estou a fazer um curso de Ilustração científica na Faculdade de Ciências com o Pedro Salgado . Numa das aulas, o Pedro debruçou-se sobre algo a que chamava Diário Gráfico. Lembrei-me que já fazia uma coisa semelhante. Achei que valia a pena pegar naqueles velhos cadernos de apontamentos de outra maneira. O Diário Gráfico como elemento de memória, como um registo da vida, e como laboratório privado e de ensaios vários. Comprei um caderno com uma qualidade de papel um bocado melhor. Os dois primeiros Diários desapareceram, perdi-os, um roubado num comboio perto de Toulouse e outro perdido num táxi a caminho de São Domingos de Benfica, e a partir do terceiro escrevi que oferecia uma recompensa a quem o devolvesse, o que nunca foi preciso, porque nunca mais perdi Diários pois comecei a ter pânico que isso acontecesse e nunca mais os perdi de vista. Esta terceira tentativa de ter um Diário acabou por estar associada a uma viagem a Paris (Maio de 2000) e a partir daí tenho continuado todos os dias. Mantenho uma linha contínua em que consigo fazer um desenho por dia, sem faltas nenhumas, independentemente das circunstâncias, da vontade e da qualidade também. Às vezes quando o Diário Gráfico fica esquecido em casa, desenho noutro sítio qualquer e depois colo, de modo a não passar um dia sem desenho. A maior parte das vezes confesso que não tenho muita paciência. E é isso que me move, porque quero fazer algo rapidamente com um mínimo de qualidade e que me dê algum prazer, mas raramente tenho tempo para me sentar e fazê-lo com calma. Tem dias em que acho que isso não existe, quando se tem vontade não se tem tempo, quando se tem tempo não se tem vontade. Mesmo em viagem, quando se propicia a ocasião para desenhar, há sempre pessoas com quem se viaja, e não quero sujeitá-las ao meu próprio egoísmo, nem perder o prazer do convívio com as mesmas. Mas consigo arranjar tempo para tudo. Não ficam as coisas tão documentadas como gostaria, mas é um compromisso. Quando se está em viagem parece que há mais vontade de se “agarrar” tudo...

Prefiro os formatos pequenos, dão mais jeito para transportar. Tem de ser maneirinho, tem de ser simples preencher uma página e seguir para a página seguinte, onde se começa tudo de novo. E também prefiro os que não se arrastam demasiado no tempo, não podem ser demasiado espessos senão vem aquela sensação do “nunca mais acaba!”, é tão bom começar um Diário novo. Há qualquer coisa de renovação ou de verificação da evolução, não sei bem. Mas lá que é bom começar um novo é.

Quanto a materiais basicamente “atiro” tudo lá para dentro, recortes de jornais, bilhetes, tudo. Trabalho muito com lapiseiras 0,5 e 0,3. Gosto do rigor. Muitas vezes uso também a caneta, acho que é a maneira mais rápida de chegar a resultados que gosto. As aguarelas uso-as ou na altura ou posteriormente. Não há tempo para tudo. Muitas vezes deixo o desenho a “marinar” de um dia para o outro e no dia seguinte torno a pegar ou deixo as coisas para trás e depois faço maratonas a completar desenhos. Há de tudo um bocado. Mas o que mais gosto de usar, e que não tenho feito ultimamente, são canetas sakura . Permitem uma certa expressão do traço, mais grosso ou mais fino, e gosto especialmente do contraste a preto e branco. Houve um Diário em que estava farto da lapiseira pois tenho sempre a tendência de usar a borracha e então obriguei-me a fazê-lo todo a caneta, para não voltar atrás, e foi bom, gosto imenso do resultado. Obrigou-me a ir por outros caminhos onde não estava confortável. O Diário Gráfico também serve para isso. Por exemplo odeio desenhar carros, mas desenho-os volta não volta só para me castigar. Gosto de coisas orgânicas, de preferência com olhos. Quando estava a viver em Tavira, onde havia um Mercado fabuloso, por vezes antes de ir trabalhar ia comprar peixe. À noite desenhava-o, depois cozinhava-o, comia-o e depois ainda o desossava para ver como era. Ainda guardo uma boa colecção de otólitos desse tempo. Não gosto muito das canetas que borram, ou então se as uso vou deliberadamente com o pincel molhado para puxar uma mancha, um borrão. Gosto sobretudo de canetas finas, se bem que ultimamente também use com maior frequência e agrado canetas pincel. Para puxar o contraste rapidamente. Preciso de precisão, e por isso a preferência por canetas finas. Mesmo com lápis se não estão afiados começo a ficar desconfortável. O guache raramente uso, a não ser para dar um toque de branco por cima da aguarela. Também acontece, se bem que raramente, usar canetas de feltro coloridas e lápis de cor. Vale tudo!

Quando não encontro um objecto que gosto de desenhar acabo por fazer de cabeça, o que me parece sempre uma solução preguiçosa. Notam-se os cadernos em que estou muito preguiçoso, é quando aparecem auto-retratos. Fico mais contente quando desenho uma coisa que exista mesmo. Gosto de apanhar bichos mortos e desenhá-los, um pardal, um melro. Só pelos livros a coisa não vai lá. Encontrar um bicho morto é garantia de páginas de Diário felizes! Andei que tempos para perceber como funciona uma asa de uma ave, onde assentavam as penas quando a asa dobra, onde estão os ossos. Depois de desenhar algumas aves mortas (limitei-me a recolher os cadáveres!) e de vários frangos assados consumidos e dissecados finalmente fez-se alguma luz quanto à morfologia da asa. E claro, ficou o registo desta curiosidade nas páginas do Diário...

Não sou de grandes improvisos no Diário, costumo fazer noutras páginas os ensaios mais arrojados. É uma faceta minha algo limitante, mas não consigo arriscar muito ali. Preciso que o Diário seja uma coisa de que goste visualmente, e costumo seguir os passos familiares do hábito. Mas tem dias, claro! Há dias em que, sem saber muito bem como, vou parar a paragens pouco familiares, e é bom. Gosto de desenhar pormenores, não vou muito para espaços abertos, não tenho à vontade para isso, nem me dá muito prazer. Talvez por limitação minha. Talvez devido ao pormenor e ao rigor que ponho nos desenhos. Se fosse fazer um grande plano ficava algo frustrado porque talvez não conseguisse dotá-lo do detalhe que gosto. O que é curioso, porque quando faço um desenho mais descontraidamente, com pouco detalhe, aprecio bastante, mas não é fácil estar relaxado a esse ponto. Às vezes, sobretudo ao ar livre, é difícil descontrair e desenhar. E, no entanto, acho que é das melhores formas de descontrair. É paradoxal, exijo grande grau de rigor num desenho, por vezes demasiado para o poder considerar como uma descontração. É uma relação amor-ódio a que eu mantenho com o desenho. Não costumo desenhar pessoas, geralmente por pudor. Só se as apanhar a jeito, sorrateiramente... e mesmo assim! Nunca me fascinou por aí além, mas qualquer dia entro numa maratona de pessoas só para ver se gosto ou não de o fazer. É sempre bom dar temas aos Diários! Uma temporada a desenhar pessoas só pode fazer bem!

Quanto à disposição e organização da página, tenho desde aquelas completamente caóticas, em que ponho tudo lá em cima, contas e tudo, até fazer só um desenho por página. Ultimamente tenho voltado às páginas mais cheias mas com muito texto, que nem sempre está em consonância com o que está desenhado. Ultimamente tem sido mais um exercício, não represento nada de especial, não há um objecto que me mova em particular, é mesmo aquela obrigatoriedade de cumprir, basicamente à espera que surja uma oportunidade e “estar com a mão pronta” para isso. Mas a maior parte são desenhos que não interessam. Tenho feito trabalhos como ilustrador e acho que também é para isso que faço o Diário Gráfico. É para estar sempre em forma. E realmente sinto que consigo fazer com o mesmo esforço e no mesmo período de tempo, coisas que me dão muito mais prazer e que gosto muito mais de ver do que quando comecei nisto dos Diários. Gosto de tomar notas no Diário acerca dos temas que ilustro. Dos detalhes inúteis. Do preciosismo. De uma pesquisa excessiva. Tenho sempre pânico de ser “apanhado em falso”, de estar a faltar à verdade. Quando observo um desenho, costumo reparar nos pormenores, se há qualquer coisa que não bate certo, mesmo que o desenho seja muito bom, fica ali uma nódoa que me atrai toda a atenção. Suponho que seja uma manifestação do grau de preciosismo que exijo de mim mesmo.

Quando se encontra outra pessoa que também faz Diários Gráficos é giro porque cada pessoa tem a sua solução e acabamos sempre por tirar ideias novas, há sempre um bocadinho de nós que se “pica”, e isso é óptimo, é uma boa maneira de se evoluir. Os Diários alheios funcionam um bocado como aquelas setas de indicações de estrada que apontam “Outros Destinos” Um amigo meu que está a acabar arquitectura tem um jeito muito mais descontraído de abordar o Diário Gráfico. Para já, não tem esta coisa militar de desenhar todos os dias, é só quando “lhe dá na bolha”. O próprio estilo dele é muito mais solto. Admiro essa sua capacidade. Mas, apesar desta minha exigência comigo próprio pelo rigor, isso não me inibe de continuar e de fazer um desenho por dia. Não podia ser de outra maneira. Provavelmente deixava de ser eu.”

Lisboa, 8 de Fevereiro de 2006