Enrique Flores. Espanha. Ilustrador.

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IMAGENS
 

Desenho profissionalmente, de preferência de noite e em casa, desde há cerca de dez anos. Os meus desenhos vão parar a livros infantis, clássicos juvenis e a revistas e jornais para adultos. Também fiz alguma banda desenhada.

Sempre que posso, menos vezes do que gostaria, pego na mochila (pequena) e num caderno (de preferência um A4 Winsor& Newton de capa dura) e vou de viagem, porque nada me dá mais gozo do que sentar-me num banco, bar ou soleira de casa e desenhar o que tenho em frente. Como nunca consigo fazer justiça às pessoas, prefiro desenha-las pequenas e entreter-me com os edifícios, (mais ainda se forem antigos, desabitados, e com azulejo), carros, (os carros americanos que ainda circulam em Cuba nunca me cansam), barcos ou árvores, (com estas ainda tenho muito que aprender).

Não gosto de viajar por Espanha e sinto-me melhor em sítios onde há muitas coisas que não consigo entender completamente (isto também me sucede no meu país, mas o que nele não compreendo pode chegar a irritar-me). Também gosto que as pessoas me olhem e que as crianças façam perguntas, algo que aqui, onde nos educaram no orgulho e no desprezo pelo estrangeiro, raramente acontece.

Antes nunca levava máquina fotográfica porque o retrato fotográfico me parecia, (e parece), um acto violento. Face ao atropelo do ˜click˜, o desenho requer tempo que pode bem ser utilizado a conversar com o modelo. Mais do que uma vez acabei oferecendo o desenho à pessoa que posava. Numa viagem recente à Índia, no entanto, reparei que há caligrafias, grafitis ou sinais que não consigo reproduzir com fidelidade nos meus cadernos, e foi assim que juntei a câmara fotográfica à bagagem. Nunca uso as imagens que trago de volta para trabalhar em casa: falta-lhes o pó, são “limpas”. Fotografias são fotografias, e os desenhos são desenhos e procuro não os misturar.

Nunca uso o lápis antes de uma aguarela. Gosto de começar com o pincel grosso, procurando não ter medo e assumindo o direito de errar. Os meus cadernos de viagem estão cheios de desenhos falhados que no entanto nunca arranco. Quando os volto a olhar, talvez anos depois da viagem, ajudam-me a recordar.

Gosto muito dos desenhos de Provensen, Ben Sahn, Muñoz, Sasek e Paul Hogarth. E também dos mapas de Jaques Liozu.