Frida Kahlo. México. 1907-1954. Pintora.

IMAGENS
 

“Ensaio” (excertos) de Sarah M. Lowe no livro “El Diário de Frida Kahlo. Un íntimo autorretrato”. 1995. Ed.Círculo de Lectores. Madrid

Tradução livre do castelhano


Ler o diário de Frida Kahlo é inquestionavelmente um acto de transgressão, com certa matriz voyeurista. Este documento constitue a expressão mais íntima dos sentimentos da artista, cuja intenção não foi publicá-lo. Por esta razão cabe catalogá-lo dentro do género do diário íntimo, série de anotações de carácter pessoal realizadas por uma mulher.

O propósito de quem escreve um diário resulta confuso e, de certo modo, paradoxal. Acaso se trata de uma autobiografia ou, melhor, de um texto que foi modificado antes de ser publicado? O manuscrito conserva a sua integridade no momento de ser lido por outra pessoa ou na hora da sua publicação? Como caberia ler o diário íntimo de uma mulher e, por extensão, que se aprende da pintora com a leitura de suas memórias?

Ao longo da história, homens e mulheres têm narrado as suas vidas, marcadas pelo tempo que lhes tocou viver ou por momentos específicos. Em contraste, o tema predominante do “diário íntimo” e, em especial, no Diário de Frida Kahlo, é ela própria. Os motivos da artista nada têm que ver com a comunicação e sim com o intuito de estabelecer uma relação consigo mesma. Assim, o enigma – Para quê escrever, se mais ninguém há-de ler o escrito? – deixa parcialmente respondido.

(…) os autorretratos, caracterizados por uma falsa honestidade, guardam certo mistério e têm omissões. A pintora autodenomina-se de “antiga ocultadora”, o tempo em que o aspecto de máscara de alguns dos seus rostos manifesta um inegável controlo pessoal. Uma revelação “pura” da intimidade da artista não é possível pelo simples facto que esta só trabalha com lentidão, o que faz com que a obra se encontre mediatizada pelo tempo e a contemplação. Pelo seu lado os textos e as ilustrações do diário intimo transmitem a imediatez das sensações transcritas em primeira mão e passadas ao papel, fenómeno que não se produz nos seus quadros.

O facto de Frida Kahlo incluir parte da sua obra gráfica no seu diário pessoal converte a este último numa peça quase única entre os “jornais íntimos” dos que se têm conhecimento. Esta colecção de imagens difere do típico caderno de esboços de artista, habitualmente utilizados para guardar traços preliminares de obras posteriores, ou melhor para pôr em formato reduzido a solução de quadros maiores. Só numa ocasião a pintora transformou um desenho realizado a tinta, incluido no diário, num quadro em grande escala. E diferente dos outros, Frida Kahlo deixa de lado os acontecimentos quotidianos e expressa no seu diário – como Virgínia Woolf – uma marca de sentimentos (e imagens) que não se encontra em mais nenhuma outra parte. Desta maneira, estas páginas deverão ser contempladas com uma certa perplexidade já que o retrato que ela faz de si mesma, neste caso, constitue tanto na cor como nas linhas, a prosa e a poesia – a imagem da artista sem máscara.

Frida Kahlo começou a escrever o seu diário a meio da década de quarenta, aos trinta e seis ou trinta e sete anos de idade. A sua vida emocional havia sido até esse momento extraordinariamente turbulenta. O seu pai havia falecido uns anos antes e ela tinha-se divorciado de Diego Rivera em finais de 1939, com quem voltou a casar-se pouco depois. A pintora havia chegado à inevitável conclusão de que nunca ía dar à luz o filho que tanto desejava e vivia atormentada por esta limitação. Submeteu-se a numerosas intervenções cirúrgicas causadas por diversos abortos e seus problemas de coluna. À medida que chegava aos quarenta, resulta impossível ignorar os signos de deteriorização que reflectia o seu estado de saúde.

(…) a obra publicada da artista tinha com o surrealismo uma série de pontos em comum: o interesse pelo inconsciente, as imagens inquietantes e, a meio, rudimentares, assim como os motivos nada ortodoxos. Todas estas características coincidem com a segunda fase do surrealismo francês, na qual criadores como Salvador Dali, René Magritte e Yves Tanguy experimentavam um ascendente de popularidade. A obra destes pintores baseava-se fundamentalmente em elementos realistas que, se bem que aparecessem distorcidos, encontravam-se imersos em estruturas espaciais que estes artistas denominavam “paisagens da mente”.

Curiosamente o Diário de Frida Kahlo apresenta maiores afinidades com o primeiro “manifesto surrealista”, de acordo como qual o automatismo psíquico ou o desenho automático permitiam evadir o processo racional e libertar o inconsciente. Esta ideia derivou da leitura que Breton realizou do significado dos sonhos de Freud e a ela se subscreveram Max Ernst, André Masson e Joan Miró.

Quase todas as ilustrações do Diário foram efectuados de forma espontânea. Para ela são janelas que permitem penetrar no inconsciente da artista, imagens que ela moldava directamente e, continuamente, elaborava. Depois de garatujar com total liberdade, Frida punha o seu ser racional (ou ao menos, parte dele) mãos à obra, e partindo de sua extensa bagagem de imagens, reais e imaginárias, as figuras biomorfas convertem-se em rostos, partes do corpo humano, animais e paisagens. O seu poço visual era profundo, alimentado por uma voracidade na leitura, hábito que a artista cultivou durante os seus largos períodos de convalescência.

Nestas imagens, a pintora mexicana disfrutava com factos aleatórios, criando todo o tipo de figuras a partir de manchas que obtinha, derramando, salpicando tinta sobre papel. Algumas imagens aparecem duplicadas, já que Frida as pressionava contra a folha contínua antes de secarem; outras resultavam tão intensas que trespassavam a folha e apareciam nas páginas seguintes. Frida empregou diversos meios – lápis de cor, tintas e aguadas, lápis de cera e grafites, e a eleição em cada caso influía no tipo de imagens que moldava. Se bem que este detalhe resulte mais evidente na confecção de listas de cores e seus significados as imagens restantes do Diário estão determinadas pelo material de que a artista dispunha na hora de pintar.

Para o sentido aleatório da maior parte destas imagens contribuem as anotações que a artista junta às figuras, comentários que expressavam a sua própria surpresa ante o resultado final: o fenómeno imprevisto é o título de uma das páginas, enquanto que “Quem é este idiota?” é a questão que se põe noutra. Efectivamente, raros são os textos ao pé da figura que ilustram pelo seu significado, antes constituem reflexões que resultam tão evocadoras e complexas como as próprias imagens.

O que o Diário de Frida Kahlo resulta decifrável não se deve ao desejo de comunicação da autora, mas à recorrência dum grupo reduzido de temas. Um deles é, sem dúvida, a sua devoção e a sua paixão por Diego Rivera, como cabe comprovar por largas e ardentes cartas de amor nas inúmeras páginas que lhe dedica. Nelas, a pintora expressa incontáveis emoções, que vão desde o seu desejo sexual, passando por um afecto maternal, até à concepção mística da sua união. Frida Kahlo resulta infinitamente eloquente no que respeita aos papéis que assina a cada um numa relação complementar e simbiótica. Entre os planos mais interessantes cabe destacar a visão do seu matrimónio unido pela arte: em numerosas passagens utiliza os términos “auxócromo e cromóforo”, o yin e o yang da cor. Ele, o auxócromo, captura a cor, ela, acromóforo, dá a cor. Assim, Rivera é omnipresente em todo o documento.

Aqui e ali a artista aproveita para resgatar elementos précolombianos da cultura mexicana. Vestígios précoloniais são incorporados no seu mundo moderno, por exemplo, no que respeita ao seu vestuário habitual, que consta de trajes indígenas e na ornamentação dos seus cabelos, que decora com cintas ou fios de lã de brilhantes cores, formando um tocado conhecido como “tlacoyal”. Frida Kahlo estabelecia um nexo ainda mais directo com o seu passado, engalanando-se com anéis, colares e pendentes de ouro, de jade, contas e conchas, alguns dos quais levavam inscritos signos ou hieroglifos incas. Da mesma maneira, o Diário aparece salpicado de termos precedentes da “nahuatl”, a lingua dos aztecas, muitas de cujas palavras se incorporaram na lingua popular do México.

Por outro lado, considerava-se herdeira de um manancial incrivelmente rico de imagens fantásticas transmitidas pelos seus ancestrais, cujo vínculo era fundamentalmente cultural, antes estrictamente biológico. As civilizações dos olmcas, aztecas e toltecas, adaptados, formulados de maneira inovadora, e inclusivamente idealizados pela artista, constituem o seu passado pessoal. Os deuses e os mitos, as figuras e os códigos, as pirâmides e os templos dos antepassados ofereciam-lhe uma geneologia que a aparentava com a grandeza do México, facto que se manifestou noutros artistas da mesma época. O seu resgate do México antigo contrastava com a atitude dos surrealistas europeus, que procuravam mitos e artefactos “pouco habituais” para revitalizar a sua obra. A invocação da civilização azteca constituía um gesto político no tempo em que o crescente interesse pela arte indígena coincidia com um sentimento nacionalista cada vez mais presente.

Frida Kahlo escreveu o seu Diário durante os últimos dez anos da sua vida e documentou nele a sua deteriorização física. As feridas registam-se esporadicamente pelo que resulta difícil estabelecer uma terrível progressão – regressão – à medida que a artista enfrenta a solidão e o terror que lhe produzem as suas enfermidades. Desde a sua infância estava familiarizada com os médicos. Contraiu a poliomielite aos sete anos de idade e, onze anos mais tarde, um gravíssimo acidente provocou-lhe fracturas da coluna, clavícula e pelvis, assim como o esmagamento da perna direita e do pé. Não obstante, as intermináveis dores, as cintas ortopédicas e as escaiolas que deviam suportar durante meses, as úlceras no pé direito (esta última conduz à amputação do dito membro pouco antes da sua morte), junto com as trinta e cinco operações que declarava ter-se submetido, puderam dever-se a uma má formação congénita da coluna, denominada “espinha bífida”. O Diário reflecte a sua incansável luta na busca de soluções em seu sofrimento, a sua resignação às prescrições dos médicos, assim como o seu frequente estoicismo ante os contínuos fracassos.

Apesar do sofrimento e a angústia que Frida Kahlo expressa abertamente no seu diário intímo, resultam evidentes as suas infinitas ganas de viver. O engenho e certo tom vitalista, a ironia e o humor negro resultam característicos. “Frida havia inventado a sua própria linguagem, o seu próprio uso do castelhano, vital e cheio de gestos, mímica, risos e gracejos, marcados pela sua constante ironia” recordou um dos seus alunos. Os autoretratos que se incluem no Diário fazer da “antiga ocultadora” presente nos quadros um ser mais humano. Neles, a máscara implacável é substituída por detalhes intímos – e às vezes aterradores – que revelam um tremendo desespero. Sem dúvida, o Diário revela em todo o momento a enorme força e vontade que só nascem do intenso sofrimento. “A angústia e a dor – escreve – o prazer e a morte não são mais que um processo” (figs.77-78). Assim o manuscrito revela de forma dramática e explícita os detalhes deste processo, convertendo-se num testemunho de atitude vigilante da artista, reflectida tanto em palavras como em imagens, na sua inexorável transito até à morte.