José Miguel Gervásio. Portugal. 1968. Artista plástico pintor/ professor

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IMAGENS
 

Estes desenhos dizem respeito a um restrito grupo de pessoas e um animal com quem convivi directamente. Através de um risco de intimidade foram realizados na sua presença enquanto disfarçava desenhar outra coisa que não a sua aparência. São imagens traçadas no papel enquanto fluíam coisas no ar em reuniões, nas incursões que fiz entre o atelier e a sala de estar, ou apenas olhando o gato que levava na  altura uma existência de gato capaz de se ajeitar a um esboço com ar de felino doméstico. Ali estão a minha mulher e as suas obsessões em forma de seriado televisivo, o gato no tapete e, às vezes, os objectos que me assaltam entre a realidade e o véu que me desliga do exterior. Sei tudo sobre o que estes desenhos contêm, porque desenho, continuamente, aquilo que vejo como se se tratasse de reconstituir, numa montagem muito pessoal, uma narrativa da realidade. Ora de dentro para fora, ora de fora para dentro, desenho a ver quem passa, ou então em estado de perfeita solidão sem pretender nada de especial. É um momento na vida que já passou, um espera aí um nadinha e já está. É assunto cá muito meu, uma necessidade quase irritante que fica assim explicada: sigo por um fio que nasce da caneta pincel a pensar no mundo as pessoas que me dizem muito ou aquelas que ignoro saber quem são. Por vezes aparecem nos papeis dos meus cadernos outras coisas, sujeito-me a que me perguntem o que é. Mas, sobretudo, desenho porque gosto de desenhar, e gostando de o fazer, insisto em fazê-lo, assim ou assado, porque não sei como vai chegar ao fim tudo aquilo que estou a fazer. Os meus cadernos são feitos de riscos que guardo como um desleixado coleccionador de pacotes de açúcares.
Se os perder, perco a minha memória.