Paul Klee. Alemanha. 1879-1940. Pintor

IMAGENS
 
“A revelação da cor” de Paul Klee na Revista “Arte y Parte”. nº22 de Setembro-Agosto de 1999. Santander

Tradução livre do castelhano


3ª Feira. 14 de Abril. Tunes-Hammamet. Às seis da manhã chegámos, Macke e eu fomos à estação de comboio. Na bilheteira uma pequena fila de gente à espera. Um velho grita e abre espaço. É tão natural. Nos nossos países são as crianças que fazem isto. Estou de bom humor, e até eufórico. Creio ver que um dos que estão na fila é Augusto e acerquei-o furtivamente como se quisesse roubar-lhe a carteira. Antes de actuar como carteirista descubro o meu erro. A viagem é preciosa. Bosques severos, até com um ponto de tenebrosidade. “A região de Eifel também é bela”, comenta Augusto. As vias deste comboio foram traçadas de forma bastante primitiva, e só se avança com lentidão. Mas que importa? Não há negócios que perseguir. Da estação de Hammamet há que caminhar um bocado até à cidade. Que dia! Em todas as sebes cantam pássaros. Vemos um jardim onde um dormedário trabalha na nora. Muito bíblico. O sistema é seguramente o mesmo. Durante horas podia estar vendo o camelo, guiado por uma criança, vai e vem mal encarada, baixando a mangueira, chegando à água, subindo-a e vazando-a. Por estar só, permaneci um bom bocado neste sítio. Mas Louis diz que há muito para ver.

A cidade é fabulosa; está à beira do mar, cheia de ângulos agudos e obtusos e rectos. De quando em quando, uma olhadela desde a muralha que a rodeia. Nas ruas vêem-se mais mulheres que em Tunes. Mulheres sem véu, como na nossa terra. Além disso, podem-se visitar cemitérios. Um está situado num local maravilhoso, frente ao mar. E uns animais pastam nele. Que bom. Trato de pintar. As sebes e os arbustos formam um belo ritmo de manchas.

Nos arredores, soberbos jardins. Cactos gigantes formam muros. Um caminho é uma azinhaga bordada de cactos.

Pintei muito e vagueei muito. Pela noite no café, com um cantor cego e uma criança tocando pandeiro, um ritmo que me acompanhará sempre!

Passamos a noite na casa de uma malvada velha francesa. Louis e Macke organizam nos um combate cozinhadosd. A velha deu-nos fígado e chá de flores silvestres. A cozinha da casa de Jaggi foi melhor!

Mas o pequeno terrazo no cimo do “hotel” era bom. Fiz aqui uma aguarela com fortes transposições e total fidelidade à natureza. Pouco tempo depois comprou-ma o dr.Karl Wolfskehl.

Sons agudos de oboé e golpes de pandeiro atraíram a nossa atenção sobre um encantador teatro de rua ambulante: um encantador de serpentes e um engolidor de fogo. Também o burro observa a cena.

4ºFeira. 15 de Abril. Agora devíamos ir a Kairouan e evitar dar uma volta demasiado grande no comboio. Portanto atravessamos a rua a pé até à estação de Birbourkba. Desta maneira vimo-nos na situação de animar a paisagem com o nosso aspecto europeu, claro que com a maior falta de adaptação. Pois o que havíamos podido ver desde o comboio nos tinha parecido tão intemporal, que fazia pena caminhar por aqui trazendo a muito temporal moda do princípio do século XX.

Maravilhosa viagem através da paisagem cada vez mais desértica. Transbordámos novamente em Kalaa-Srira, donde comemos no fundo da estação a cargo de um hoteleiro extremamente nervoso. Um negro é à vez cozinheiro e camareiro; não é muito limpo, mas sabe do seu negócio.

5ªFeira. 16 de Abril. Pintei muito tempo fora da cidade, numa luz ligeiramente difusa, suave e clara. Não havia névoa. Logo desenhei do interior………

Pela noite vagueei pelas ruas. Um café decorado com pinturas. Formosas aguarelas. Comprámos algumas coisas e estamos contentes

Chegamos a um café no passeio. Estava um anoitecer de cor ténue em vez de bem definido. Virtuosos de jogos de mesa. Uma hora feliz. Louis descobre manjares de cores esquisitas e pede-me que os conserve no papel, porque sei fazê-lo muito bem.

Deixo agora o trabalho. Sinto-me profunda e suavemente compenetrado com o ambiente, sinto-o e me sinto seguro, sem esforço. A cor tem-me dominado. Não necessito procurá-lo fora. Tem-me para sempre, sei-o bem. E este é o sentido da hora feliz: eu e a cor somos um. Sou pintor.