Lagoa Henriques. Portugal. 1923. Escultor. Poeta. Professor

IMAGENS
 

Conversa Gravada

Para falar do Diário Gráfico… não se devia falar, devia-se escrever. Empregar qualquer tipo de caligrafia. Mas vamos passar da palavra escrita, da palavra desenhada, à palavra oral. O Diário Gráfico é qualquer coisa que nós, na medida do possível, escrevemos todos os dias, sobre a realidade que nos cerca. É o risco inadiável em que o desenho é realmente prioritário, mas a palavra também aparece, porque tanto o desenho como a palavra escrita são caligrafias. O Diário Gráfico acontece, não deve ser uma obrigação, deve ser uma necessidade, deve ser qualquer coisa que faz parte da nossa própria existência. E acontece sempre, digamos, desde que o Homem existe. Quando se criam os primeiros passos de habitação, as grutas pré-históricas, nas suas paredes há desenhos, há sinais, há memórias, algumas feitas no próprio dia que aconteceram, uma caçada em que a luta não foi fácil, por exemplo. A presença de determinados acontecimentos registada da forma mais espontânea e com as técnicas mais elementares. É preciso dizer que a própria pintura pré-histórica é um Diário Gráfico. O suporte do desenho ou da pintura, de sinais, pois nessa altura ainda não se tinha inventado um alfabeto, nem tão pouco a imprensa, constituindo uma necessidade de registar, de “aprisionar”, aquilo que nos acontece e que nós consideramos mais importante e mais representativo. Já se sabe que sob o ponto de vista didáctico ou pedagógico, eu tive aquele privilégio de sugerir aos meus alunos de Desenho e aquela cadeira que eu criei depois da revolução dos cravos, do 25 de Abril – Comunicação Visual – aí sim, eu achei que era prioritário comunicar visualmente e fundamentalmente através da imagem o que cada um dos jovens achava que era mais importante, no decorrer da sua existência, no dia a dia. E assim aconteceram Diários Gráficos notáveis. Eu aconselhava que o Diário Gráfico devia ser registado num pequeno bloco, num pequeno caderno, que se pudesse trazer na algibeira para que num momento oportuno fosse possível registar através de desenho ou da escrita as tais memórias corporizadas. E assim acontece. Assim aconteceu. Tenho dois ou três Diários Gráficos de alguns alunos. Mas toda aquela geração que pela primeira vez esteve na Comunicação Visual respondeu a esta minha sugestão e realmente aconteceram coisas muito interessantes.

Falei na Pré-história mas posso lembrar-me que ainda quando eu era adolescente, falava-se muito nos Diários, mas de simples palavras. Diários mais ou menos secretos, e que tinham muito a ver com as aventuras ou desventuras sentimentais e inclusivamente com os acontecimentos múltiplos de que a vida é feita.

Tive um grande mestre de Diários Gráficos que foi um pintor-escultor e arquitecto. De manhã frequentava o seu atelier de pintura-escultura e à tarde ia para o atelier de arquitectura. Estou-me a referir ao homem notável, um dos grandes mestres da Arquitectura Moderna, o Le Corbusier. Nasce na Suiça, filho de um relojoeiro, apaixona-se pelo desenho, vai para Paris fazer um curso de Arquitectura, matricula-se, assiste às primeiras aulas e chega à conclusão que ali não ia aprender nada e resolve “dar a volta ao mundo”, e leva consigo os tais cadernos onde vai escrever o seu diário que tem o nome muito expressivo: “os Cadernos de Procura Paciente”. Se assistisse a esta conversa, Picasso diria: “Ó Corbusier, atenção, eu não procuro, encontro”. E o Diário Gráfico é realmente um encontro permanente. Eu citei aqui o Corbusier, mas muitos artistas, em várias épocas, em várias situações, mesmo o próprio Picasso tem Diários Gráficos notáveis e … muitos outros. É um fascínio. E é uma disciplina, porque qualquer manifestação, qualquer forma de expressão para atingir qualidade, exige um exercício disciplinado. Um grande violinista, um grande concertista, um pianista, tem que todos os dias tocar as escalas, tem que fazer uma série de exercícios. No caso das artes visuais é necessário que não esteja perfeitamente apto para representar não só a realidade exterior, mas também a realidade interior. Estou-me a lembrar dum Diário Gráfico, por exemplo, do Albert Durer, que tem mais diários escritos que desenhados. Estou a lembrar-me duma página fascinante que é a representação dum sonho. Ele acorda e escreve logo e aguarela esse sonho. É uma coisa deslumbrante. O Almada Negreiros nunca fez nenhum Diário Gráfico, no entanto, quando ele define o desenho como o nosso entendimento para fixar o instante, é o mesmo que o Diário Gráfico, que é também o fixar o instante. Porque nós estamos comandados por este correr por “este rio que corre” como diria a Marguerite Yourcenaur e os filósofos gregos pré-socráticos dizem “o Homem nunca se banha duas vezes na água do mesmo rio”, portanto a nossa consciência que estamos em permanente mutação, leva-nos a registar aquilo que é mais importante no nosso dia a dia. O que é importante no Diário Gráfico é que tem também um sentido criativo. Pela filosofia popular podemos dizer: “Quem conta um ponto acrescenta um ponto”, ou melhor como dizia o nosso António Aleixo: “A arte é um dom de quem cria, por isso não é artista aquele que só copia as coisas que tem à vista”. Portanto o Diário Gráfico acrescenta sempre alguma coisa aquilo que nós vemos, que é a nossa própria personalidade, a nossa própria experiência.

Com os alunos mostro-lhes vários exemplos, como o meu caderno que trago sempre comigo, e mostro-lhes com a maior simplicidade. Eles tanto podem desenhar este automóvel que está à nossa frente, como aqueles três caixotes do lixo, como podem fazer uma variante sobre aquele lettering ali, ou o grafitti, etc. O Diário gráfico é um registo do quotidiano que nós pretendemos tornar mais forte e que possam influenciar os outros. Devem “correr de mão em mão”. Deve ser um incentivo ao espírito de camaradagem e ao espírito de geração. Penso que isto também é fundamental e que se pode desenvolver através destes registos inadiáveis que se chamam Diários Gráficos.