Rui Costa Lopes. 1944. Portugal. Professor de Filosofia

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IMAGENS
 

Em desenho, não posso sequer dizer que sou um auto-didacta porque isso podia fazer supor que tinha aprendido alguma coisa. Mas não, o gosto de riscar, esse sempre o tive. E, à força de encher os cadernos com bonequinhos, acabei por ter uma certa segurança de traço. Devia ter frequentado cursos que me disciplinassem, onde aprendesse, por exemplo, a coisa mais difícil do mundo: desenhar mãos. A minha admiração pelas mãos do Egon Schiele, por exemplo, é sem limites. E os pés, claro. São mãos e pés que exprimem, não parecem apenas estar ali como um par de luvas penduradas ou sapatos velhos atirados para o lixo.

Os azares da vida e das profissões mandaram-me fazer outras coisas e eu, preguiçoso, obedeci. Desde que me lembro, andei na escola: a primária, o liceu, a faculdade, cursos disto e daquilo, acções de formação. E de muito cedo, a par com os apontamentos, em vez deles na maior parte das aulas, eram bonecos o que eu desenhava. Contra mim próprio, confesso: a maior parte das aulas a que assisti – e, admito, das que dei – cabiam no canto superior esquerdo de uma folha A-4. Seguir o que o professor dizia, apanhar o seu fio condutor, encadear os conceitos realmente importantes era uma tarefa demasiado árdua e só se aguentava com a ajuda de esquemas.

Falava-se em liberdade, eu podia desenhar um arame farpado e um tosco boneco armado de uma tesoura. Claro, depois podia desenhar a moto em que ele ia fugir. O professor, entretanto, sem respeito nenhum pela minha necessidade de acabar o desenho decentemente, já estava a falar de responsabilidade e a dizer que um dos conceitos exigia o outro. Eu, que remédio, da moto fazia uma seta, no fim escrevia em letra gordas o novo conceito e entretinha-me depois a desenhar em volta uma mala, um baú, um carrinho de mão, ou coisa que o valesse.