José Louro. Portugal. 1964. Designer. Professor

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IMAGENS
 

Desde sempre desenhei, mas a prática de manter um diário gráfico começou com o mestrado em Desenho, em 2001, na Faculdade de Belas Artes. Tive a sorte de encontrar o professor Pedro Salgado, na cadeira de Desenho Científico, que me incutiu o bichinho. Até hoje.

Devido à minha formação académica ser no campo do design industrial, a minha relação com o desenho era, a certa altura, puramente operativa, um modo de resolver problemas do projecto. Este facto foi empobrecendo a minha capacidade de desenhar outras coisas que não fossem previsões de objectos utilitários. De qualquer modo sempre me senti atraído pelo lado puramente estético dos esquissos que acompanhavam os projectos dos arquitectos e designers: um tipo de desenho de execução rápida e informal, expressivamente abreviado. Aquele era o meu desenho.

A manutenção de um diário gráfico representou então um meio ideal para não só exercitar o traço perdido, mas simultaneamente desenvolver a capacidade (também perdida) de improvisação gráfica na observação da realidade visual. Este é aliás um dos aspectos mais difíceis de alcançar num desenho que se pretende de fixação do momento: deixar que a mão trabalhe de forma intuitiva e pouco racional, liberta da acção condicionadora da mente, isto é, das convenções que temos inculcadas por uma formação gráfica escolar mais ligada a um tipo de desenho académico e tradicional.

Nos diários gráficos o medo de falhar não deve existir. Embora isso não seja fácil, pelo menos para mim, na verdade sempre que consigo “desligar” a mente deixando a caneta trabalhar, perco o controlo dos resultados finais. Este aspecto arbitrário dos desenhos que tento praticar nos meus diários é aquilo que me emociona.

No entanto nem tudo são rosas. De facto a improvisação necessita de uma técnica segura que obriga a muitas horas de prática. Atingir um registo em que não falta nada e não sobra nada é sinónimo de muito trabalho e, para mim, meta ainda longínqua. É por essa razão que não me canso de afirmar aos meus alunos que quanto mais cedo melhor.

Para os menos convencidos, existe ainda um outro atractivo. Um diário gráfico pode ser um objecto realmente bonito, onde as concretizações gráficas mais ou menos conseguidas podem ser acompanhadas de outros elementos plásticos, como as colagens, a disposição das formas na página ou o recurso ao texto.

Outro aspecto interessante é a questão da visualização por outros dos nossos diários gráficos. Um diário gráfico é por definição um objecto íntimo, no entanto desde sempre alguns artistas os disseminaram. O contacto sem filtros com o mundo interior do artista é perseguido não só por curiosos, mas também por coleccionadores, museus e estudiosos do assunto. Hoje em dia a Internet, através dos blogues, permite o mesmo a qualquer um. E qual a vantagem disto? Para mim várias: primeiro constitui uma motivação para continuar a desenhar, uma espécie de obrigação para um eventual público, visto que muitas vezes o desenho é uma actividade árdua, depois é uma oportunidade para contactar com pessoas com o mesmo gosto e, por fim, um meio prático para incentivar os meus alunos a desenhar o que, acreditem, não é fácil.