Ângela Luzia. Portugal. 1963. Historiadora. Directora do Museu da Cidade de Almada.

IMAGENS
 

Diários Gráficos

Não sei se faço exactamente diários gráficos. A compulsão para registar/organizar a vida em cadernos que reúnem notas de estudo, trabalho, indicações de viagens, utilidades, contactos, enfim, “coisas” do quotidiano à mistura com rabiscos, desenhos ou colagens vem de há vários anos.

Sempre tive uma relação ambígua com cadernos. Não dos de “menina”, bonitinhos, antes os com ar de escritório, de gente “crescida” e páginas lisas. Convenhamos que são objectos fascinantes: pequenos livros em formatos portáteis, páginas à espera de utilidade, o pérola amarelado do papel, as capas duras, enfim…objectos desafiantes e uma quase compulsão a que não resisto. E é nesta expectativa de utilidade que reside o problema: escrever, desenhar o quê?

Nunca escrevi diários no sentido habitual. Nunca senti a urgência de escrever para além do necessário porque sempre achei como leitora que o resultado era de uma banalidade atroz. Já o risco, o traço como mnemónica, fixação de estados de alma ou prolongamento quase inconsciente da mão que ajuda à concentração, sempre me pareceram naturais desde que tenho memória de mim. O desenho, não como disciplina ou desígnio artístico, mas como post-it, com a capacidade de evocar pormenores, ambientes, sentimentos, indecifráveis para terceiros, mas que a natureza ou tipologia do risco me permitem reconhecer, mesmo anos depois.

Assim, habituei-me a ter sempre o “meu caderno” que vou arrumando, organizadamente, por data ou viagens. Roteiros pessoais de deambulações e vagabundagens, que reúnem mapas arrancados de listas telefónicas, registos rápidos de ambientes em que não interessa o detalhe, bilhetes e notas de despesas, fotografias repintadas ou desenhadas, pormenores documentais de equipamentos, vestuários, ferramentas, padrões, colagens de flores, especiarias…Estes registos alternam com transcrições da leitura do momento, trechos de conversas roubadas de ouvido, contactos, notas de reuniões, legendas que completam os desenhos rápidos, quase sempre a esferográfica preta rollerball fina ou, havendo tempo para a preguiça esforçada, aguarela ou pastel.

Não sei se são diários gráficos, são antes “mapas” que me ajudam a organizar o mundo.