Pedro Mamede. 1968. Portugal. Designer. Professor. Estudioso do desenho de artistas feito em viagem

IMAGENS
 
A imagem do irrepresentável

Noutros tempos era fácil, o olhar espalhava-se pela paisagem e com a mesma naturalidade a representação passava-a para o papel sem outras pretensões que não fossem as de reproduzir o que se viu da forma que o tornasse melhor identificável para outros. Mas o tempo passou e imiscuiu-se como dimensão no campo das artes onde outrora não necessitava entrar. Sendo a viagem um percurso que é espacial, mas em simultâneo temporal, este valor reclama a sua inclusão para uma nova espécie de representação. Sendo o desenho bidimensionalização, e se antes era fácil enfiar no caderno de viagem aquilo que se vê frente a nós, como reproduzir então a demora do olhar ou a sucessão dessas visões? Talvez numa representação múltipla, faseada, sucessiva; onde os vários momentos se alternam, ou mesmo se misturam num mesmo espaço de folha, onde talvez até os objectos se deformem. Esta expressão plural é uma marca, uma conquista da modernidade; aprisionado o tempo, a visão múltipla ajuda o artista a condensar numa única folha de papel aquilo que não veria outrora parado no ponto de observação. A linguagem ambígua e aberta do desenho é o aliado certo do artista, dado que mostra por convenção e não por imitação, permitindo-lhe cristalizar num plano tudo aquilo de que se faz rodear, através da junção de diferentes pontos de vista, escala, pormenor, gramática. E é só isto? Será a viagem apenas esse percurso visual? Não será também um percurso emotivo? E mais uma vez a contemporaneidade como limite de uma história da arte nos dá o ponto certo onde o artista actual pode assumir a linguagem óptima para esse registo, com toda a variedade de registos pessoais, emocionais, expressivos. Será possível ainda pedir mais, ou representação, técnica e expressão são apenas os ingredientes do artista? Não sei, mas no momento em que ele se senta a meio de uma viagem, na sua cabeça, nas suas mãos há uma miríade de experiências que esperam uma descarga sobre o papel. Independentemente da sofisticação dos processos de registo, é a duas dimensões que nasce um registo daquilo que na realidade nunca se consegue representar; da mesma forma se transmite, mas é multidimensionalmente para o espectador do resultado final que essa experiência se revive, e mesmo assim nunca com a força e emoção com que o faz o artista quando esgotado o momento e a força da viagem abre o caderno do desenho.

Dezembro 2005