Henri Matisse. 1869-1954. França. Pintor

IMAGENS
 
“Matisse. Le Voyage en Polynésie” (excerto) de Paule Laudon. 1999. Société Nouvelle Adam Bido. Paris

Tradução livre do francês

A Janela de Tahiti

Henri Matisse está no seu quarto do Hotel Stuart com uma grande janela sobre a galeria do 2ºandar. Pilares em pedra e balustradas de cimento enquadram a paisagem marítima. Nenhuma inclinação de montanha, nenhuma silhueta da ilha, apenas o porto, a passadeira, o oceano e o horizonte vazio. Sozinho, apenas o Motu Uta rompe a horizontalidade, levantando os seus coqueiros a oriente da baía.

Em primeiro plano, através da folhagem dos grandes maru maru ou “madeira negra” que dão sombra à avenida da beira-mar, uma escuna (tipo de barco. Goélette) balança os seus mastros, amarrada diante do hotel. É a bela “Papeete”, que, construída em S.Francisco no fim do século passado (sec.XIX), para a marinha nacional francesa, bateu em 1892, o recorde da travessia S.Francisco-Papeete (em 17 dias e 20 horas). Transformado em navio de comércio inter-ilhas, permanecendo fino e com raça, ele convida à viagem.

Sentado numa poltrona barroca de baloiço, Matisse olha esta vista sobre o porto e, voltando-se, a vista interior do seu quarto. Olha este mundo novo que vem encontrar nos antípodas, nota as semelhanças, as diferenças. Apodera-se do espaço e da luz, procura a relação dos volumes, o jogo dos valores, o ritmo. Olha e desenha. Faz numerosos esboços, fazendo-o sob diferentes ângulos.

Matisse, “para quem desenhar é tornar uma ideia mais precisa”, enche em Papeete álbuns de desenhos, para assim forjar a renovação, que é o objectivo da sua viagem. Ao contrário da ideia, que ele próprio criou, trabalha todos os dias, aqui no seu quarto, nas horas quentes, ou nos jardins da cidade, antes das suas voltas à ilha. O seu caderno de esboços não o deixa. Com a finura do seu olhar, a mestria da sua arte onde o traço linear contínuo adquire cada vez mais importância, desenha em todo o lado, frequentemente durante várias horas. Mas muito menos do que o habitual.

Por causa do calor sufocante, fatigante e, sobretudo, da humidade do ar, que suporta mal, é menos activo do que na metrópole. O que dá a impressão de não fazer nada, de perder o seu tempo, para alguém cujo “trabalho é complemento indispensável da vida”.

Desenha o quarto, os móveis, a cómoda e, no seu espelho, o seu autorretrato, para o qual põe o seu chapéu colonial. Num outro dia, olhando-se ao espelho, ele fez um esboço, sempre para Amélie, onde ele se encontra sentado de torso nu, um “pareo” à volta dos rins, escrevendo sobre os joelhos, no cadeirão de baloiço. Desenha várias vezes esta cadeira barroca.

Matisse gosta das cadeiras, que o envolvem, que ele faz intervir nas suas telas, por causa das suas formas, das poses que o favorecem, o bem-estar e o prazer que lhe proporcionam. Aquela do hotel Stuart não pode deixar de o seduzir pela arquitectura complexa, pelas suas curvas, colunas e a sua riqueza rítmica.

Outro tema matissiano e corrente entre os pintores, “a janela permite-lhe realizar o seu objectivo: restituir ao estado de alma criado pelos objectos que o rodeiam desde o horizonte até ele próprio”. A do hotel Stuart traz o infinito para além da vista do porto de Papeete, e oferecem um duplo enquadramento. O quarto abre-se sobre o mar, pela sua porta-janela e pela sua varanda bordada de balustradas, Matisse multiplica esboços e desenhos.

Os objectos que o rodeiam, desloca-os para estabelecer um novo equilíbrio nas suas relações recíprocas, para que as superfícies, os volumes, as cores e os perfumes, mesmo as de colares de flores colocados no quarto, se correspondam. “Ele organiza o espaço de tremuras de energia resplandecente, o burburinho de emanações psíquicas que escapam à consciência, e percorrem o quarto em todos os sentidos, o quarto e o pintor, e através das cortinas de mousselina, o mundo, o espaço sem nenhuma dimensão”.

Mais prosaicamente, muda a disposição dos móveis, diante da janela do hotel Stuart (que não tem nenhuma cortina de “pareo” ou de mousselina). Fá-los sair para a galeria, aproxima o cadeirão , desloca uma mesinha à altura das balustradas e pousa o feto “aoa” que decorava o quarto.

Ordena o espaço segundo um ritmo novo em que as folhas do feto inscrevem-se sobre as folhagens das árvores, as curvas da cadeira de baloiço sobre as das balustradas, onde a corda que retém o estar responde aos mastros da escuna. E desloca-se a ele próprio, mudando o enquadramento e o campo de visão. Uma ligeira aproximação, uma deslocação lateral mínima, e tudo balança. Os novos ritmos lineares alteram o campo do desenho.

Um ano mais tarde, na Metrópole, Matisse volta a alguns destes desenhos, para efectuar uma água-forte a ilustrar o poema de Mallarmé, “As Janelas”. As balustradas, as árvores, a escuna “Papeete”, estão fiéis. Mas uma cortina bordada traz um elemento decorativo novo. A ilha de Moorea acrescenta a sua silhueta no horizonte.

Em 1935, Matisse reproduz esta gravura num cartão de tapeçaria, “Janela do Tahiti”. Um friso de loendros (arbusto exótico com grandes flores cor de rosa ou brancas. Frangipaniers), novo elemento decorativo, enquadra a vista que se afasta do uniforme através de acrescentos, das volutas da cortina de mousselina clara, da massa das montanhas de Moorea e das nuvens que a coroam. Moorea, deslocada, vermelha ao pôr do sol enche o céu, suprime a linha de horizonte, modifica todos os ritmos. Os tons são quentes, do falso quadro, da paisagem, da balustrada amarela.

Pouco satisfeito com a execução da tapeçaria, Matisse volta a fazer um cartão no ano seguinte, “Janela de Tahiti II”. Um desenho, primeiro onde ele diminue as balustardas que o montador de liços (de tear) tinha modifocado, dando mais espaço à baía. E no segundo cartão, todo o espaço está organizado de maneira diferente, simplificado, em cores lisas e puras.

As horizontais afirmam-se, dividindo o quadro em três bandas largas, azul da baía, a mais importante; violeta escuro do primeiro plano, donde se destacam as balustradas vermelhos estilizados; vermelho e negro no horizonte. As curvas de Moorea, as suas nuvens volumosas, nesta última banda, são achatadas, as árvores também, superfícies verdes delineadas por traços negros. Entre as folhagens, as diagonais e a brancura do palco são visíveis. Os motivos ligeiros, os festões, a transparência da cortina de mousselina, e o falso quadro que mudou de cor acentuam o estilo decorativo.

Cada uma das telas no seu museu, de Nuce ou de Cateau-Cambrésis, trará uma imagem enquadrada por loendros, do quarto das balustradas brancas com cores transparentes. A partir delas, a harmonia muda, mais natural na primeira com superfícies mais moduladas, irrealistas, mais contrastadas e mais forte na segunda. Os dois quadros, lado a lado, mostrarão a evolução da arte de Matisse, a prova mais gritante que a via é a mais correcta.