Miguel Mira. Portugal. Arquitecto. Professor. Artista Plástico

IMAGENS
 

conversa gravada

O meu pai é arquitecto e a minha mãe leccionava desenho e pintura. A minha família, tanto da parte do meu pai como da minha mãe estão viradas para a arte. E para te ser franco eu não era um gajo muito ligado à actividade artística. Quando era miúdo estava mais para a actividade desportiva. À partida não se vislumbrava qualquer apetência para esse lado. Acho que foi a Banda desenhada. O meu pai começou a comprar uns livros que se chamavam “Texas Jack”. Uma coisa horrível, mas era a forma de incentivar uma colecção. Até que apareceu o Tintim. Tinha para aí uns 10 anos. Eram semanais. Eu além de querer ser arquitecto, o que sempre quis nem sei porquê, comecei a querer fazer BD e os primeiros desenhos que fiz foram a tentar fazer uma. Não era um gajo com muita habilidade, sentia que não conseguia fazer desenhos como alguns colegas mais habilidosos. E quando fiz as primeiras experiências já tinha conhecido as histórias do Hugo Pratt a preto e branco. Numa certa altura, penso que quando entrei para a Faculdade, começam-me a pedir tudo em desenho. A minha vida era feita a partir do desenho. Aquilo para mim não era nenhum enigma, era um reflexo, uma intuição, eram desenhos pouco intelectualizados, nada pensados. Mas os professores gostavam e davam-me boas notas e eu sem saber porquê. Percebi que de facto o desenho era uma boa maneira de comunicação e que eu já o utilizava de uma maneira inconsciente. Quando a arquitectura começou a surgir, eu nunca a separei das artes e “fugia” para pintura (quando as escolas eram vizinhas), para o pé do Manuel San Payo , para as aulas de modelo e de repente o desenho é uma opção. Passei a ser além de jogador de rugby um tipo que desenha. Acabo arquitectura e começo a trabalhar com o meu tio Frederico George, que conciliava a profissão de arquitecto com a de pintor, acabando assim o meu problema, o da existência dessa dicotomia. Há uma fase em que começo muito envolvido no gesto, em que o Manuel San Payo é muito importante nessa altura. É um trajecto de fantasia, de brincadeira, mas já dá exposições, que até vêm nos jornais. O mestre Frederico George diz que aquilo não é nada, a arte é uma coisa mais séria. Pensei muito no que ele me disse e até deixei durante uns tempo de pintar. Entretanto conheci o Miguel Navas , meu colega professor na Lusíada, e ele, o professor Conduto e o Manuel já anteriormente, foram realmente importantes para a minha evolução.

O Diário Gráfico permite ver melhor, estar mais atento. É a única forma que há de se estar a desenhar sistematicamente. E depois há o encanto do próprio objecto, que é uma coisa muito curiosa e isso também descobri com os outros que o faziam. Os do Manuel San Payo eram autênticas viagens, ele dava aulas no Barreiro e desenhava todos os dias os passageiros do barco que se sentavam à sua frente. Todos os dias fazia pelo menos um. Eu nessa altura andava mais a pé o que permite observar melhor e desenhar. No outro dia fiz a subida do rio Douro, que até à Régua são umas cinco horas, o que se torna muito maçador. Então fiz a única coisa que se pode fazer naquele lugar, que é desenhar. Se me perguntares se houve algum objectivo naquilo, penso que houve só o fazer obsessivamente, sem parar. Do mesmo modo, quando estive em Praga o frio era tal que as minhas mãos gelavam, já não sentia os dedos, o sacrifício era enorme, mas continuei sempre a desenhar no próprio local, ao ar livre. Hoje em dia continuo a fazer mas porque sou arquitecto. Agora estou a escrever mais do que desenho, porque estou sujeito a uma grande pressão para escrever devido ao doutoramento.

Ao contrário dos meus colegas pintores, desrespeitava o caderno, não me preocupava com as composições, com a capa, tudo muito bem feitinho. Aquela concepção de Diário Gráfico como objecto plástico nunca me passou pela cabeça. Primeiro, não há o risco de ficar mal porque é feito por compulsão, não tenho alternativa, não pode ficar mal, é o que faço e é essa compulsão que aparece. Numa certa altura passou a ser um instrumento de trabalho, nomeadamente em relação à arquitectura. Ou seja é o sítio onde eu penso o que vou fazer. Há uma coisa gira dita pelo Gregotti (arquitecto, com Manuel Salgado, do CCB), ele diz que no atelier dele tem um estirador e na parede à frente cola as imagens que vai fazendo, chamando a isso “perspectório”, palavra inexistente, mas ele explica-a como se com os seus desenhos ou imagens que recolhe abrisse uma série de janelas, ou pistas, para o trabalho que está a desenvolver. O gajo faz aquilo na parede eu faço o mesmo com os Diários Gráficos.

Fazer uma selecção de bons desenhos nos meus diários não é fácil, porque não é esse o objectivo. Quando um gajo faz um desenho genuíno, interessado e empenhado no que está a fazer, não está preocupado com o resultado, mas sim com o processo, como o Itten fazia na Bauhaus. Quando vais ver o resultado os desenhos têm uma grande frescura. São o reflexo daquilo que eu vejo todos os dias, mas um reflexo pouco complexo.

Posso dizer que também sou pintor devido aos meus amigos. Eles incentivam-me, fazem coisas tais que eu digo que também quero fazer o que eles fazem. É evidente que quando vou à exposição deles percebo que tem que haver um grande investimento e persistência. São pessoas obcecadas. Eu também sou, mas neste momento estou muito disperso.