Henry Moore. (1898-1986). Inglaterra. Escultor

IMAGENS
 

Henry Moore’s Sheep Sketchbook, Comments by Henry Moore, Thames&Hudson, Londres, 1980 (excerto)

Lembro-me, desde sempre, que desenhar era a actividade que mais prazer me dava. Lembro-me que na escola elementar, a lição de desenho costumava ser à sexta-feira à tarde, na última meia hora, quando o professor estava já cansado e satisfeito por ir de fim-de-semana. Eu adorava, não por ser o fim da semana, mas porque era a aula de desenho. Mais tarde, quando soube que queria ser escultor, reparei que todos os escultores que admirava eram grandes desenhadores: Miguel Angelo, Bernini, Rodin. O desenho ele mesmo é uma parte da aprendizagem: aprender a usar os olhos para ver mais intensamente. Quando se encoraja as pessoas a desenhar não é para as tornar artistas, tal como não se ensina gramática para os transformar a todos em Shakespeares. Se todos os homens fossem levados a desenhar as suas mulheres, poderiamos continuar a ter alguns divórcios, mas aquele marido que começaria a olhar mais intensamente a sua mulher saberia muito mais sobre ela. Poderia fazer um péssimo desenho, mas náo seria isso o importante.

Os meus desenhos de ovelhas começaram durante a preparação nos meus estúdios para a grande exposição em Florença em 1972. Os embaladores e transportadores estavam por todo o lado, numa tal confusão que era impossível trabalhar, e eu retirei-me para um pequeno estúdio, frente a um campo que eu emprestara a um lavrador local para criação de ovelhas.
Sentei-me neste pequeno estúdio fazendo pequenos modelos de gesso ou maquetes. Agora trabalho de modo diferente de quando era um jovem escultor, faço maquetes que posso imaginar em qualquer tamanho que me agrade, mas que posso segurar na minha mão e olhar de todos os pontos de vista.
Sempre gostei de ovelhas, e há uma escultura minha de grandes dimensões a que chamo Sheep Piece porque a instalei num campo e as ovelhas gostam dela e os cordeiros brincam à sua volta. As ovelhas têm o tamanho exacto para o tipo de paisagem de que eu gosto para as minhas esculturas: um cavalo ou uma vaca reduziriam a sentido de monumentalidade. Talvez as ovelhas pertençam à paisagem da minha infância em Yorkshire. Se o lavrador não tivesse as ovelhas aqui eu teria algumas minhas só pelo prazer que me dão.

Estas ovelhas andavam muitas vezes perto da janela do pequeno estúdio em que eu trabalhava. Comecei a ficar fascinado por elas e a desenhá-las. Primeiro vi-as como bolas de lã informes com cabeça e quatro pernas. Depois comecei a compreender que debaixo de toda aquela lã estava um corpo que se mexia de maneira própria e que cada ovelha tinha um carácter próprio. Se eu batesse na janela as ovelhas paravam e olhavam com aquele olhar curioso de ovelha. Ficavam assim até durante cinco minutos e eu podia conseguir que mantivessem a pose por mais tempo simplesmente batendo de novo na janela. Não durava tanto como da primeira vez mas tudo junto as ovelhas posavam tão bem como os modelos vivos na escola de arte. Mais tarde comecei a acrescentar composições tentando criar um arranjo pictórico. À medida que fui aprendendo mais sobre as ovelhas comecei a ser capaz de as desenhar de memória, à noite, ou a fazer desenhos mais acabados a partir de esquiços básicos.

A embalagem para Itália levou cerca de três semanas, portanto, as primeiras vinte a trinta páginas estavam provavelmente feitas nessa altura; mas continuei a desenhar, porque a época dos cordeiros tinha começado, e mesmo à minha frente estava o tema da mãe e filho. Este é um dos temas favoritos no meu trabalho: a forma grande relacionada com a pequena e protegendo-a, ou a completa dependência da pequena em relação à grande. Tentei exprimir o modo como os cordeiros mamam com verdadeira energia e violência. Há qualquer coisa de bíblico acerca das ovelhas. Não se ouve falar de cavalos e vacas na Bíblia da mesma maneira; ouvimos falar de ovelhas e pastores.

A técnica é a de desenho a caneta feita com esfereográfica. Não há uma verdadeira diferença entre usar uma esfereográfica ou outro tipo de caneta; o importante é que se pode desenhar uma linha mais negra pressionando com mais força. Mais tarde, voltando as páginas dos cadernos, posso querer enfatizar certos pontos, e para fazer isso usei uma caneta de feltro preta. Nalgumas páginas usei uma aguada de aguarela cinzenta para dar um sentido de distância mais suave. Quando juntei cor – como fiz em vários destes desenhos – posso fazê-lo mais por algum efeito de desenho do que para uma explicação do assunto.

A grande vista traseira de ovelhas na página 27 era suposta ser o fim do caderno – como o fim de um filme de Charlie Chaplin, em que ele volta as costas e se afasta. Mas eu continuava a gostar de desenhar as ovelhas e continuei.