Mauro Moro. Italiano a viver em Portugal. 1977. Arquitecto.

IMAGENS
 

O Tempo. Vivemos numa época onde o tempo contraiu-se como nunca antes, e isso reflecte-se em particular no nosso dia a dia (o que os ingleses chamam-lhe de rat-race) e transborda até ao nosso tempo livre, ao tempo das férias e das viagens. O nosso viajar está contaminado pelo frenesim difuso assim que a tendência geral é o de concentrar o máximo das visitas num tempo relativamente breve para reduzir os custos da estadia e optimizar a experiência. Pense por exemplo o tour clássico que os japoneses fazem na Itália: Veneza, Florença, Roma em apenas 4 ou 5 dias! Como é possível "saborear" cidades ricas como estas concentrando-as num flash?

Não temos o tempo de "observar", nem sequer de "aprender" de uma viagem. O que podemos fazer é seguir minuciosamente o nosso programa, o nosso guia, as nossas visitas e tentar "registrar" o mais possível da experiência assim de pode-la "rever" comodamente em casa com calma, deitados nos nossos confortáveis sofás.

A forma de "registrar" faz-se também hoje no modo "acelerado"

O Digital. Diz-se sempre que hoje a tecnologia ajuda. Em parte é verdadeiro:
por um lado a tecnologia digital fez nos poupar em revelações e consumo de papel fotográfico, mas por outro lado a fotografia digital incrementou a velocidade da experiência da viagem e, pessoalmente acho que sobretudo a banalizou. É fácil observar como os turistas hoje não passam de um grupo de safari à caça de fotografias e vídeo e outras formas de gravação/registo. Isto, infelizmente, aplica-se a tudo: é normal tirar fotografias das coisas mais importantes e significativas dum lugar, mas também a tecnologia digital consegue justificar fotografias insignificantes se não ridículas. Não prestamos atenção ao que estamos registrando simplesmente porquê "se não ficar bem, depois eu apago-a!" em outras palavras no digital tudo é válido.

O caderno de esquiço é uma minha estratégia pessoal para contrastar estas duas tendências. Esquiço como tempo de observação, de reflexão sobre um lugar. Isso cria uma memória mais rica e vivida da experiência da viagem e do lugar onde o esquiço foi produzido. Esquiço como estratégia contra a banalização da imagem, contra a sua frenética e irresponsável aplicação a tudo e a nada! Quando se desenha faz-se uma escolha do sujeito, do enquadramento. Desenha-se o que vale mais, ou o que se sente mais naquele momento. Isso incrementa o valor do desenho.

Para apreciar um lugar não é suficiente vê-lo: temos de observá-lo e o desenho é uma das melhores opções para fazê-lo!