Navas, Miguel. Portugal.1963. Artista Plástico. Professor. Arquitecto

IMAGENS
 
Sempre achei um disparate, se não um equívoco, a “angústia do papel branco”. Supostamente, a sensação do “artista”perante a folha ou tela vazia, isto é: branca. A mim, o que sempre me angustiou, foi a falta de vazio: espaço para riscar, intervir, marcar, registar, comunicar. Tanto que, na falta dele, desenho na palma da mão esquerda (quando já não restam cartões de visita, recibos, bilhetes, etc). Assim, posso afirmar que os diários gráficos são um bem precioso e fazem parte da minha indumentária; são como os sapatos, caminham sempre comigo.



Há dias, passou-se o seguinte diálogo entre mim e um amigo:
Ele – Quantos anos tens?
Respondi-lhe.
Ele – E ainda não usas óculos? Na tua actividade.
Eu – Não.
Ele – Nem para ver ao perto, ler?
Eu – Não. Ele – Para ver ao longe?
Eu – Não, mas uso diário gráfico.
Ele (olhando-me com um ar intrigado) – Não te estou a perceber.
Eu – Para ver para dentro.