Hugo Nazareth Fernandes. Arquitecto. Professor

IMAGENS
 

Desenhos “a café” e outros imaginários de bolso
 
“Desenho que designa e novamente sintetiza…”
Para mim estes registos são uma possibilidade de continuar o desenho livre, fora do âmbito profissional, que no meu caso é o da arquitectura. É uma “respiração” com uma dimensão “fora do tempo” que aprecio bastante pelo silêncio que cria. Aqui é muito fácil “desligar” e voltar a “ligar”. Têm uma escala de tempo deliciosamente oposta à da arquitectura, o que me agrada bastante.
Os desenhos “a café” são os que eu mais gosto de fazer porque ficam a cheirar bem. Além disso, o açúcar forma uma espécie de “goma” que lhes caracteriza a textura, confere densidade, e, por vezes, brilho (um certo “efeito kodak”, snapshot a sépia mental para-mais-tarde-recordar). Para isso um papel mais plastificado e uma mini-colher – daquelas tipo “bica”, de aresta viva, que anda no bolso –, são a minha combinação preferida, isto porque não absorvem tanto, e permitem o deslizar da gota durante muito mais tempo, exactamente ao contrário do papel de aguarela e do pincel, com o qual não me dou muito bem, a não ser que seja de feltro. Já experimentei com vinho tinto, mas azeda e não tem tanta piada. É demasiado “sanguíneo” para ser repousante. O “brandy”, ou a “ginjinha”, funcionam melhor.
Procuro adaptar instintivamente o meu traço ao tipo de caneta que tenho à mão, o que também condiciona a velocidade do desenho. Os mais rápidos serão sempre os mais espontâneos, e há um “factor de honestidade” nisto tudo que “obriga” o acto a ser mais interessante, sobretudo quando não há uma ideia pré-consciente e o conjunto se induz e por fim se equilibra – ou não. Uma certa apologia do inacabado, estilo “jazzy” na corda-bamba… E depois há a questão da batota, do traço que “resolve” – ou então estraga! e transforma tudo numa paródia de nós próprios.
Também há, por vezes, a pretensão de pormenorizar, onde a espontaneidade dá lugar à teimosia, o que transforma uma sessão de praia numa escalada, mas também é bom subir essa montanha de vez em quando.
Outras vezes dá-me a “mania das grandezas” e a partir de pequenos registos soltos, como estes, imprimo grandes formatos a canvas em que misturo cor – mas isso, como diria Kipling, é outra história.
No fim, encaro estes registos gráficos como pequenas liberdades do dia-a-dia. Marcam uma interpretação do real com reflexos do imaginário. E têm, no geral, a beleza de não servir absolutamente para nada. Mas também é bom subir essa montanha de vez em quando.