José Neves. Portugal. Arquitecto.

IMAGENS
 

Doze preceitos para usar um caderno de viagem

“ ‘Mas depois ele voltou para o seu trabalho como se nada tivesse acontecido. ‘
Esta é uma observação que nos é familiar de uma vasta quantidade de velhas histórias apesar de talvez não ocorrer em nenhuma.” 1

1.Eleger os cadernos e os instrumentos de desenho com o acerto do operário que escolhe as suas ferramentas.

2.Desenhar sempre por necessidade, vício ou prazer, nunca por obrigação. A obrigação pode cegar.

3.As viagens podem ser planificadas, os desenhos de viagem não. Desenhar transforma as viagens em deambulações.

4.Escolher cada ponto de vista como uma sentinela escolhe o seu posto, para que os desenhos transformem aquilo que nos atrai naquilo que devemos ver.

5.Desenhar as coisas como se de as salvar se tratasse.

6.Observar como quem recorda e representar como quem inventa, para que o desenho consagre o estranho como reconhecível e nos devolva o familiar como surpresa.

7.Reagir às coisas desenhando, para nos construirmos.

8.Observar pacientemente para que o que registamos possa surgir mais tarde sob formas imponderáveis. Os cadernos de viagem são a bagagem que arrumamos hoje para vir desarrumar o futuro.

9.Os desenhos de viagem são os bilhetes-postais da nossa atenção. O que trazemos de cada viagem são menos os desenhos que fomos fazendo e mais aquilo que em nós ficou gravado por tê-los desenhado.

10.Desenhar de memória para que o fascínio se desdobre em crítica e o sobressalto em apropriação.

11.“Estar só para na sua obra estar todo, mais junto e pronto, e não ter o pensamento derramado nos olhos dos muitos que o estão olhando e para estar consigo mais recolhido e solitário.” 2

12.“Não tentar cumprir todos estes princípios, por recear não cumprir nenhum.” 3


1 Kafka, Franz, Considerações sobre o pecado, o sofrimento, a esperança e o verdadeiro caminho , Lisboa, Hiena Editora, 1992.
2 Holanda, Francisco de, Do tirar polo natural , Lisboa, Livros Horizonte, 1984 [3 de Janeiro de 1549].
3 Swift, Jonathan, When I come to be old in The Prose Works of Jonathan Swift, D.D. . London : George Bell and Sons, 1897 (1699), vol. I, xcii (traduzido do original).