Susana Oliveira. 1967. Professora. Ilustradora

IMAGENS
 

Quando fiz 10 anos comecei a escrever um Diário depois de ter lido o de Anne Frank. Todos os dias escrevia no Meu Querido Diário e aos poucos comecei a ilustrá-lo com desenhos e colagens. Usava grandes livros antigos de registo. Quando cheguei aos 17 anos, esses desenhos ocupavam todas as páginas e os textos encolheram até quase desaparecer. Arranjei então um formato mais cómodo e passei a chamar ‘querido’ a outros. Os cadernos serviam para fazer estudos para trabalhos de pintura, listas de material e desenhar colegas estranhos que via na cantina. Serviam também para pequenas vinganças que não sabia nem queria consumar por outros meios que não o desenho. Eram particularmente feios e desarrumados mas, apesar de não os levar muito a sério, faziam algum sucesso entre amigos. Embarquei nessa vaidade e produzi cadernos como projectos em si. Pintava, colava, escrevia e voltava a pintar coisas de imaginação, para não perder as ideias. Os desenhos de observação ficavam geralmente abandonados em toalhas de papel, por entre círculos de vinho e manchas de café. Só muito depois percebi que eram justamente esses que devia ter guardado. Não teria perdido momentos e lugares irrepetíveis porque entretanto as circunstâncias e os lugares e as pessoas mudaram e acabaram.

Os diários passaram a quandomeapeteçários. E apetece-me desenhar sempre em viagens e durante as férias. Algumas vezes, poucas, durante noites de insónia, registo as pessoas da minha família a dormir, quando estão mais quietas e bonitas. Uso cadernos pequenos e resistentes e desenho sempre de observação, com lápis, esferográfica ou canetas Mícron e Pitt pretas. E uma caneta pincel japonesa que estimo particularmente. Raramente uso cor, um ou outro apontamento de aguarela. Não me guia nenhum propósito se não aquele sossego de estar para ali a olhar.

Este caderno, um dos que fiz numa viagem sozinha à Grécia e a Itália, teve a decência de me fazer companhia nas mesas de café, de me obrigar a demorar nos lugares e de os guardar, não fossem eles desaparecer sob os meus olhos.