Pablo Picasso. Espanha. 1881-1973. Pintor

IMAGENS
 
Texto de José L.Valdé (excerto) do livro “Carnet de Paris. 1900”. 1995. Editorial Cabariego. Madrid

Tradução livre do Castelhano


A Pablo Ruiz Picasso, que lhe enquadram tão bem as palavras de Goethe “nascido para ver, pôsto para contemplar”, vai a Paris em 1900, aos dezanove anos de idade, e fundamentalmente o que faz é ver, contemplar e reflecti-lo em seu Carnet.

… Picasso está de volta a Barcelona, depois da sua primeira viagem, e o seu Carnet recolheu as gentes, miúdos e mulheres que viu na rua, como querendo salvá-los para recordação de todos. É evidente o interesse do pintor pelo que o rodeia, e apoia-se nestes rápidos desenhos, às vezes tão só esboçados, para conservar personagens que possa utilizar posteriormente. Quase com toda a segurança, os desenhos foram feitos in situ, e posteriormente coloridos no estúdio. O pequeno formato do Carnet e as notas manuscritas que aparecem, fazem-nos pensar que Picasso o adquiriu para bloco de notas, onde anota gastos, compras, direcções, etc., que podia levar sempre consigo. Sem dúvida, fica claro que em seguida lhe interessou mais desenhar as personagens que vía na rua, do que as listas das compras ou fazer a contabilidade; e também é interessante comprovar que se fixa muito mais nas mulheres (aparecem 27 representadas) que nos homens, dos quais retrata só 8. Sem dúvida, fixa-se em todas as camadas sociais, e entretem-se a desenhar tanto militares, como vendedoras, criadas ou elegantes senhoras com trajes da moda, grandes chapéus e peles.

Picasso e seus amigos passaram a maior parte do seu tempo nas ruas de Paris, nos cafés, nos cabarets e nos parques. Tudo era novo, cheio de vida e cor, havia carros eléctricos, carros de cavalos, vendedores ambulantes, vistosos cartazes publicitários e senhoras vestidas à última moda, e tudo valia a pena ser captado. Além do seu valor artístico, este Carnet tem um valor documental único ao revelar o primeiro encontro do artista com a cidade em que finalmente iria residir quase meio século.

Aquele jovem que vai a Paris será chamado a renovar e revolucionar a pintura, a escultura, o desenho, a gravura, a litografia, a cerâmica, as artes decorativas, a arquitectura cubista e a literatura dadaísta, da que talvez Picasso seja o mais genuíno e espontâneo representante. Quer dizer, Picasso, além de ter “nascido para ver” e “pôsto para contemplar”, também lhe são muito pertinentes as palavras de Goethe “o meu olhar é um pensar, o meu pensar um olhar”.


«Enigmas para a posteridade» de Françoise Gillot no livro
Je Suis Le Cahier. Os Cadernos de Picasso. 1986. Editora Record. Rio de Janeiro

Muitas vezes os pintores precisam registar um pensamento fugaz, uma observação, uma nova organização de formas e cores. Um caderno de desenho é um companheiro, um espelho de sonhos, totalmente sincero, já que é totalmente particular e pessoal. Dos rabiscos e anotações rápidas ou elaboradas, ele é testemunho dos processos iniciais da criação. Os pintores quase sempre relutam em mostrar essas anotações espontâneas, muito embora possam gostar de discutir uma obra com a caneta na mão numa mesa de bar e demonstrar seus argumentos no próprio papel estendido para proteger a toalha. Claro que há uma diferença, pois no caderno o artista tenta registar uma nova concepção que surge do limbo do inconsciente, enquanto no bar ele exibe publicamente sua competência, espírito e virtuosismo bem ensaiado.

Pablo Picasso não foi uma excepção: se gostava de mostrar aos amigos suas últimas obras ou improvisar num café, permanecia reticente em relação a seus cadernos de desenho; por isso, fiquei bastante impressionada quando, ao final de 1945, ele começou a me mostrar alguns dos aspectos mais íntimos de sua obra. Na ocasião, vi desenhos a tinta nanquim do período azul dentro de um exemplar lido e relido de Noa-Noa de Gauguin, assim como os estudos a lápis que levaram a Les Demoiselles d’Avignon, que eram guardados num cofre no banco.