João Queiroz. Portugal. 1957. Pintor

IMAGENS
 
Conversa gravada


Eu executo o Diário Gráfico e utilizo para essa execução um determinado tipo de papel e determinado tipo de folhas que são normalmente cortadas por mim, não têm um formato standard, têm formas ligeiramente diferentes umas das outras e utilizo um papel que tenha bastante gramagem que é para ele próprio poder servir de base. Não utilizo o caderno normal por uma simples razão, é porque quando se utiliza um caderno normal parece que há uma abstracção do formato da folha, e então o que “cabe” lá dentro pode ser um apontamento a ser utilizado para uma coisa diferente, mas se eu utilizar um papel cortado daquela forma, como eu faço, acontece que eu tenho que contar com aquele espaço, e isso serve-me directamente para pensar a pintura. Antigamente fazia-se a distinção entre o desenho de escultor e o desenho de pintor. O desenho de escultor era aquele que era lançado numa folha de papel em qualquer sítio, que depois era utilizado numa estátua, e o desenho de pintor já contava com o campo que iria ocupar, e é nesse sentido que para mim é mais útil fazer em formatos de papel que não sejam de caderno normal. Corto-as no princípio, e levo-as como se fossem um caderno, mas separadas, para não estar sempre com folhas iguais. Portanto os registos têm a ver com esse processo de pintura. Fazer uma composição com um espaço determinado.

O trabalho do Diário Gráfico tem vários vectores de importância para o trabalho que se quer ter posteriormente na pintura. Primeiro é um desenho de observação, depois é um desenho de relacionamento entre coisas, que depois vou utilizar na pintura: vou relacionar vários aspectos daquilo que estou a observar, excluindo os outros. Encontrar relações entre as coisa, que utilizo depois na pintura. E ainda tem outro aspecto que é o aspecto do treino. Treino mesmo. Treino corporal, ou seja, quase que como se estivesse no Diário Gráfico ou nos desenhos em geral, a inventar os gestos que depois, ou grupos de gestos, ou sequências de gestos que depois são utilizados também na pintura. Tem essa tripla relação com o trabalho. É um treino, é uma busca e é uma observação. Mas não há uma relação directa, ou seja, não estou com o Diário Gráfico a fazer o desenho que depois vou pintar. Mas tem influência, mas não é directa, não é uma cópia.

Uso fundamentalmente o lápis. Muitos destes desenhos são reelaborados depois, quando estou a observar é normalmente lápis, grafite. Depois mais tarde , alguns deles são reelaborados com grafite ou lápis de cor, tinta não. São reelaborados em casa, já sem o motivo à frente, normalmente na mesma folha, mas por vezes noutra, mas quase sempre na mesma. Faço uma espécie de “mise en place” a lápis, e depois se quero alguns aspectos com tinta ou com cor, com sombra ou com luz, ou qualquer coisa assim, reelaboro depois em cima; ou com pena, ao ritmo do gesto, etc, posso reelaborar em cima dos desenhos que já fiz.

Eu posso moldar o lápis ao tamanho que me convém, isto é, eu posso andar com um lápis pequenino, que é uma coisa que me interessa. Um lápis pequeno faz com que eu não tenha determinados gestos da escrita, ou seja, de modo a que os gestos da escrita não se imponham, o lápis nunca passa para aqui (entre o polegar e o indicador). Isto permite-me correr o campo todo, de uma maneira mais ou menos equivalente para todas as direcções. Essa “mise en place” que o lápis faz, de ir a todos os lugares, é-me permitido precisamente pelo lápis. Por várias razões, para já, é um material que não suja, que é fácil de utilizar, e depois também permite esse gesto que eu estou à procura, que os outros materiais já precisam de ter o lápis por baixo para depois serem mais soltos também. Um pincel ou uma caneta, por exemplo, já é muito mais uma escrita, para esse tipo de observação que eu estou a fazer já vai muito para a escrita, já preveligia muito certas direcções em detrimento de outras.