Ruth Rosengarten. Inglaterra. Artista plástica. Historiadora de Arte.

www.ruthrosengarten.blogspot.com
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IMAGENS
 

Como nunca fui capaz de escolher convictamente entre palavras e desenho, e como não consigo prescindir de nenhum deles, tanto sou artista como historiadora de arte. O desenho tem estado sempre presente na minha actividade, mas, durante a última década, tenho vindo a interessar-me mais seriamente pela fotografia. Esta minha indecisão entre actividades implica que tenha passado longos períodos sem entrar no estúdio. Nestas circunstâncias, o desenho tem sempre sido a minha forma de não perder a mão. Para mim, tanto é íntimo como expansivo, sempre libertador, ajudando-me a desmantelar velhas inibições que surgem em períodos em que não trabalho com as mãos.

Para alguns artistas, o caderno de desenhos significa desenhar a vida: um minúsculo companheiro de bolso em explorações urbanas, em paisagens longínquas ou viagens ao estrangeiro. Embora os cadernos com desenhos tivessem inicialmente sido locais onde eu ia explorar ideias para pinturas ou para outros projectos, eles são, agora, o local de explorações diárias, a gravação do dia-a-dia. O banal e o usual são, para mim, fontes do maior fascínio: mais do que o sonho ou a imaginação, a idealização ou a fantasia, é o dia-a-dia que se reveste de inelutável poesia. Gosto do concreto de uma peça de roupa ou de um objecto pessoal, com a sua sugestão de proximidade humana; os detalhes de refeições meio consumidas, a ternura exposta nas nossas relações com animais de estimação ou crianças; a familiaridade dos nossos lares e dos locais que habitamos com regularidade. Parece existir relação íntima entre a mão que deixa rasto nos desenhos e a forma como os nossos corpos assinalam a nossa presença na nossa vida diária.

Geralmente, uso simultaneamente vários cadernos (com papel diferente, com formato diferente) e muitos utensílios (não lhes consigo resistir, embora bastem apenas poucos). A escolha de tema, material e suporte condiciona, de certo modo, o resultado do desenho: estou ciente de que o "aspecto" do desenho, quer seja delicado ou mais grosseiro e expressionista, quer muito linear ou riscado e rápido, nem sempre é totalmente voluntário. Como nunca saio de casa sem a máquina fotográfica, e como juntei milhares de fotografias desde o advento da fotografia digitalizada, não é apenas a vida, mas também a fotografia, que serve de fonte para os desenhos, e os desenhos que faço a partir de fotografias têm traços menos nervosos, menos excitados: o tema manteve-se imóvel, e eu estou no conforto da minha casa.

Recentemente, criei um blog com desenhos diários. Não é bem um diário gráfico, embora seja, em parte, um registo autobiográfico; é, antes, uma tentativa de registar a passagem do tempo, de forma disciplinada. Embora ame desenho, estou também intrigada pela forma como a moderna tecnologia da Internet tem vindo a afectar aquela forma mais básica de deixar marcas. Tem posto em evidencia o trabalho de pessoas cujos desenhos ocorrem num palco menos público do que uma galeria ou um museu, e estou encantada por fazer parte dessa corrente.