Pedro Salgado. Portugal. 1960. Desenhador Científico. Biólogo

IMAGENS
 
Artigo “Desenho Científico” (excerto) de Pedro Salgado no
Catálogo da exposição “A Natureza Mestra das Artes”. 2001. na Casa da Cerca. Almada


Cabe aqui uma referência aos esboços de campo (field sketching), actividade que tem um papel fundamental na formação do ilustrador.

É a desenhar no terreno que se aprende a observar com maior profundidade, a absorver os pormenores, a antecipar problemas e soluções gráficas, a entender o representável, o estame, o arbusto, a paisagem. O resultado poderá ser pouco mais que o conjunto de algumas notas visuais, mas o registo dessa informação irá constituir um pequeno espólio que se revelará valiosíssimo mais tarde, no atelier.

Os esboços de campo, para além do seu aspecto lúdico incontestável, ensinam-nos continuadamente a observar melhor, servem-nos de aquecimento antes do trabalho rigoroso, eliminam a tensão física e psicológica da arte-final no estirador, e deixam-nos memórias fortes no papel. Nunca se esquece o que se desenhou.

Conversa gravada

Aquilo que carrego sempre comigo para trabalhar no campo, e a ideia é andar sempre com as coisas atrás. A primeira coisa é que não seja um caderno de campo muito grande, porque senão deixo-o ficar em casa. Deve caber na mala. Se fôr muito pequeno também há coisas que eu não consigo fazer lá dentro, falta-me espaço. Se fôr muito grande fica em casa muitas vezes porque dá muito trabalho a transportar. Portanto, para mim, o ideal é uma coisa que varia entre o A4 e o A5.

Falando mesmo do caderno de campo que é aquilo que em princípio anda sempre comigo, o ideal é que não seja muito grande e aprendi uma coisa, que muito gordo também não me interessa, interessa-me mais fino, para marcar etapas, arrumar e passar à frente.

E depois em relação aos materiais. Aquilo que eu faço dentro do caderno de campo a maior parte das coisas acabam por serem feitas a grafite, tenho duas ou três lapiseiras de diferentes durezas, geralmente trabalho com grafites suaves, para poder haver expressão de traço mais gordo e mais fino, mas costumo andar com meia dúzia de pequeninas coisas para fazer algum apontamento de cor ou de registo, canetas de feltro ou outras, para colorir, normalmente o que levo é uma caixa pequenina de aguarelas e depois em vez de levar uma série de pincéis guardadinhos, que dá muito trabalho a enrolar e desenrolar…Estas coisas, quanto a mim, têm que ser possíveis quando de repente eu lembrar-me de fazer alguma coisa e num minuto ou dois estar pronto em termos de materiais para o fazer, porque se tenho que desembrulhar isto e aqueloutro, preparar aquilo… isso é mais para o atelier, que às vezes chego a demorar meia hora a preparar , antes de começar uma aguarela. Se não ponho as coisas no sítio nunca mais começo.

Aquilo que eu uso para a aguarela é normalmente este pincel. (Pincel cujo cabo é um depósito com água). Não se vende cá. Enche-se de água. Não se tem de molhar. Serve para o campo e para o museu. Faz linhas finas e grossas. A ideia é não ter que estar sempre a molhar, porque isso é uma grande chatice. Se eu tiver que ter um copinho de água e um gódé, não dá jeito nenhum. Agora se eu tiver uma coisa destas vou directamente ao pigmento com o pêlo humedecido. Isto dá para fazer tudo o que se quiser. Com mais ou menos pigmento, pressionando aqui, misturo… todos os tratamentos de cor são feitos assim.

A ideia é puder trabalhar de pé, se me sento e desenho em cima do joelho já considero um luxo, e assentar arraiais numa mesa então…

No campo, no jardim ou no meio da cidade. E se me aparecer uma igreja, ou uma coisa qualquer que me chame a atenção… Pessoas raramente, não me interessam tanto, interessam-me mais animais, plantas, alguns objectos, fazer contraponto entre eles. Quando pego nas pessoas é mais aquele desenho de arquitectura, para ter ali uma escala, para perceber o tamanho que tem a pessoa em relação à árvore, por exemplo. Em relação a pessoas interessa-me bastante mais, alguns aspectos delas, como uma mão, um pé, a orelha, e então já trato aquilo independente da pessoa no seu todo, e passa a ser um objecto orgânico interessante. Pessoas inteiras, não quer dizer que não tenha feito, mas é raro pegar por aí. Normalmente aparecem-me à frente outras coisas.

Portanto, voltando ao material com que trabalho: Uma lapiseira, minas de 3B ou 4B, e depois se me apetecer fazer um desenho qualquer com outro tipo de registo, uso tinta da china ou marcador, que não sendo à prova de água, tento puxar, directamente com a água, o pigmento.. Brinco assim com as questões tonais, fazendo mais escuro ou mais claro, dar outro aspecto, ou de BD ou outros, dando um registo completamente diferente. Ou assim ou com as cores todas.

Uma das coisas que eu faço para tornar a coisa mais divertida, é criar algum espólio próprio, ficando satisfeito com algumas coisa que ficam para trás. Se não fôr assim não faz sentido. Portanto isto é mesmo para me divertir.

Claro que desenho muito com o lápis e com as outras coisas que falámos, às vezes, também, escrevo mais e desenho pouco e outras vezes faço o contrário, mas por vezes vou buscar informação escrita para fazer o contraponto da caligrafia em termos de composição.. E mais, ando sempre com cola e fita cola, e pego num objecto ou numa folha e colo ali, e faço uma espécie de herbário, por exemplo, e meto tudo lá para dentro, com bilhetes de avião, de autocarro, uma entrada para não sei o quê, tudo o que tenha a ver, de alguma forma, com a vivência imediatamente anterior ou posterior ou ao mesmo tempo desse desenho. Tem sempre uma aspecto muito pessoal. Portanto, basicamente, isto serve para me divertir, e para manter de alguma forma a cabeça e a mão educada. Eu sei que nas alturas em que estou durante um mês ou dois a trabalhar nisto quase todos os dias, qualquer projecto de ilustração que me apareça à frente vai muito mais “lubrificado” do que noutras alturas. Isto não tenho dúvidas nenhumas. Por outro lado isto serve-me de contraponto para o excessivo rigor com que eu tenho de trabalhar normalmente na ilustração científica, onde não pode falhar nada em termos de proporções, de contagem de elementos, de estruturas, etc., e, é o outro lado da questão, deixa-me a mente muito mais liberta, e serve precisamente para descontrair. Há alturas em que não sigo isto com a regularidade que queria, mas quando viajo, quando saio do quotidiano, faço uma expedição, um fim de semana, nunca me esqueço disto. Bem posso tirar uma data de fotografias, bem posso conversar com os amigos que também foram, lembras-te disto ou daquilo… mas para mim a minha viagem (ao Amazonas, por exemplo) é isto (aponta para o caderno). Para além disto eu fiz cerca de 600 slides. Mas tenho aqui muito mais informação neste caderno de campo do que nos slides, pelo menos informação que me interessa, daquilo que me chamou a atenção, daquilo que me interessou, do que que eu passei para desenhar e para meter cá para dentro. E a fotografia, olhamos um certo enquadramento, fazemos o click, e metemos para trás, para a memória. As coisas complementam-se. Estou com vontade, até, de publicar estas imagens digitalizadas (do caderno de campo), mais os slides e fazer uma espécie de diário, que, ainda estou à procura, mas combinaria texto por um lado, das impressões, observações, opiniões, os desenhos do caderno e as fotografias. Combinar as três coisas num objecto, num livro, aquilo que fôr, aquilo que eu vivi no Amazonas, duma maneira muito especial, aquilo que me chamou a atenção, aquilo que eu fotografei, aquilo que eu desenhei, as coisas que me lembro, as coisas que vi lá, juntar todas as coisas.

Em relação às coisas chocarem-se. As coisas que me interessam de alguma maneira, eu tenho, normalmente, interesse em procurar combiná-las. Aliás, a minha formação é de biólogo e sentía-me bastante incompleto se trabalhasse exclusivamente como ilustrador, e também me sentiria incompleto, pelo facto de não ter a visão científica das coisas. A minha tendência, de maneira geral, é juntar coisas que aparentemente não têm necessariamente que se juntar. Procurar pontes e encontrar combinações interessantes. Com a fotografia é a mesma coisa. A fotografia nunca me interessou tanto como a partir da altura em que eu comecei a ilustrar. A partir da altura que eu comecei a ter que fazer desenhos e tentar fazer as minhas fotografias, consegui encontrar campos que me diziam muito respeito e não tenho qualquer formação de fotógrafo, nem interesse particular pela fotografia, mas revelaram-me coisas interessantes a partir daí. E depois, muitas vezes, pego nas fotografias e meto-as cá dentro (no cadrno gráfico).

Há alturas que estamos ali imenso tempo a fazer o desenho, duas ou três horas, outras vezes, temos, por exemplo, 20 minutos. E às vezes acaba por ser interessante procurar perceber que tipo de informação gráfica nós conseguimos plasmar no papel. Obriga-nos a seleccionar as coisas mais interessantes, a sintetizá-las, a tomar notas ao lado.

No caderno de campo, por princípio, nunca temos muito tempo para trabalhar nele, até porque se eu vou um fim de semana para qualquer lado e se eu fizer dois ou três desenhos um bocado mais aperfeiçoados ou com mais dedicação, como aqueles que eu costumo fazer no atelier, pronto, nesse fim de semana não fazia rigorosamente mais nada, e a ideia não é essa. A ideia é parar, normalmente uma ou duas horas, se fôr uma coisa muito interessante, e é raro passar daí. Avançar para a frente e, lá está, e isto para mim é muito importante, ensinar-me a mim próprio a sintetizar, a simplificar as coisas, a pôr o essencial, a não me preocupar nesse momento com uma série de pequeninos detalhes que no trabalho de atelier tem que ser tudo muito mais trabalhado, muito mais rigoroso e às vezes cria de facto uma grande tensão.

O facto de começar um desenho de um objecto que tenho à minha frente, o facto de eu começar por fazer meia dúzia de esboços descomprometidos, da mesma maneira que eu faria no caderno de campo, ajuda de facto imenso a absorver o que existe de realmente importante nesse objecto e ajuda, também, a descontrair, a retirar de cima o peso da necessidade do rigor, que faz com que queiramos fazer uma linha direita e às tantas não está solta, é como uma espécie de aquecimento que o atleta faz antes de entrar em prova. O caderno de campo também pode ser isso, ou pelo menos o tipo de trabalho que nós fazemos que se pareça com o caderno de campo, ou pelo menos, como eu o encaro.

O material não deve ter muitas coisas. Em termos de espaço que não seja superior ao próprio caderno: duas ou três lapiseiras, os pincéis de que eu falei, umas canetas mais finas e mais grossas que se pareçam com tinta da china, raramente uso mesmo a tinta da china. Evito andar com molhos de lápis de cor, dá-me mais jeito ir directamente ao pigmento. Para além da fita cola para prender coisas e a cola para prender outras tantas, tenho uma certa variedade de borrachas. Há muitas coisas que faço quando trabalho a grafite que acabam por ser desenho no sentido subtractivo, em vez de ser aditivo. A própria mão que deixo estar despreocupadamente, o que era impensável no atelier, suja quando estou a riscar, mas depois com vários tipos de borracha dá para fazer brincadeiras e retirar a grafite e criar brancos com outros efeitos.

Outra coisa que eu levo sempre é uma lupa. Sendo um apaixonado por coisas infinitamente pequenas, por aquilo que está fora do alcance das pessoas. O que nós vemos, o que nós estamos habituados a apercebermo-nos, é uma parte minúscula das coisas que estão por ver, ou seja, as coisas muito grandes não temos capacidade para as ver e para as coisas muito pequenas pomos uma lupa destas por cima e abre-se um mundo novo. Portanto é um campo que eu gosto de garantir que chego lá se me apetecer.

O problema de como mostrar os cadernos gráficos, pode não ser um problema, visto que podem não ser feitos para mostrar. Mas uma das maneiras é com um tipo de cadernos que eu vi muita gente usar nos EUA, e que ainda não vi cá, são os cadernos em harmónio, que podem abrir-se e ficam com o comprimento de 4 ou 5 metros. Estes cadernos são feitos pelos próprios, com o tipo de papel que se quiser. Doutra maneira é preciso desmembrar todo. Mas normalmente é só para mostrar aos amigos ou colegas o que se anda a fazer. Se eu os fizesse para mostar, tinha que seleccionar páginas, pois há coisas que só a mim dizem respeito, são muito pessoais. Quando se digitaliza perde-se um bocado. Aquilo que eu acho engraçado no caderno de campo é precisamente a folha mal tratada, pelo café, pelas manchas da mão, pelo estar riscado com força de mais, isso é que tem a sua graça. A partir do momento em que isto é fotografado e impresso, seja de que maneira fôr, há algo que se perde.