Manuel San Payo. Portugal. 1957. Professor. Artista Plástico. Ilustrador.

IMAGENS
 

Conversa gravada

Faço Diários Gráficos desde o meu primeiro ano da Faculdade de Belas Artes, incentivado pelo Lagoa Henriques, na cadeira de Comunicação Visual do 1ºano. Sem me aperceber e passados uns anos tinha coleccionado à volta de 150 Diários Gráficos feitos com uma regularidade que nem eu próprio me tinha apercebido. Fiz isso de uma maneira bastante inconsciente. Às tantas acabou por ser uma actividade paralela ao meu trabalho feita com uma certa naturalidade. Digamos que não os fazia de propósito para os ter mas integrei isso naturalmente como meu processo de trabalho. Fiquei muito espantado quando, de repente, vi aquele volume.

Actualmente estou a tentar tirar conclusões a partir desse corpo de trabalho, que terá sido, no início, paralelo, e que neste momento não sei até que ponto não será o trabalho mais importante que eu tenho, ao ponto do trabalho que consideramos normalmente o principal, aquele que expomos em Galeria, esse sim ser o paralelo.

Neste momento decidi reflectir um pouco sobre isso, até para efeitos académicos, e o Diário Gráfico começou, dependendo como as coisas vão seguir, aquela componente inconsciente e natural que tinham os meus Diários Gráficos estão a vir à superfície e está a tornar-se uma coisa consciente. Não sei até que ponto é que vai tornar as coisas complicadas ou novas.

Normalmente, quando falamos de Diário Gráfico, temos uma ideia um pouco preconcebida. Associamos sempre a ela um livrinho que cabe no bolso, comodamente, para termos sempre à mão, sempre pronto a ser utilizado, nas circunstâncias mais inesperadas, porque a ideia é mesmo essa, uma espécie de suporte para registar eventos ou coisas inesperadas. Portanto associamos a ideia de Diário Gráfico a esse livrinho, normalmente de formato A6, que cabe no bolso, transportáveis, de capa dura, com as variantes em termos de qualidade, papel que poderá a haver, … O livrinho, por vezes, é cozido, encadernado, outras vezes poderá ter argolas. A pessoa poderá arrancar ou não as folhas, ou assumir o suporte como um livro mesmo, onde há uma sequência, seja dos dias passarem, seja porque os desenhos são feitos em sequência e quer-se mantê-la. Mas há outra hipótese que é o caderno ser em argolas, permitindo depois desfazer o caderno e até utilizar as folhas e expô-las com moldura na parede.

No início, os meus Diários Gráficos não eram livrinhos, mas blocos “Castelo” que seriam só Diário Gráfico no sentido que eu fazia diariamente com regularidade de diário. Só lentamente é que comecei a aderir à ideia de livrinho, não sei se consciente ou inconscientemente, porque o bloco remetia muito para o formato de desenho “artístico”, “académico”, enquanto que o livro tem uma componente de que as coisas não são feitas com um fim, para depois serem expostas numa parede, mas para serem guardadas. Funcionam com uma componente íntima, de bastidor, ou de paralelo com outra actividade. Quase que diria que o Diário Gráfico é uma coisa para nunca ser mostrada. Se nós podemos dizer isto do Desenho, que é uma coisa para ficar escondida sempre, para ficar subjacente a uma pintura, para ficar debaixo de uma escultura, ou um projecto para arquitectura, tem sempre essa componente de “osso”, de “estrutura”, que fica por baixo de uma “pele”. O Diário Gráfico é associado muito ao desenho nesta ideia. Sem querer estar a definir muito, acho que podemos associar como essência do Desenho algumas características que o distinguem de outras linguagens. Nesse caso a ideia de Diário Gráfico associa-se muito bem a essa ideia de “bastidor” que o Desenho poderá ter. Tanto em termos de projecto como em termos de fazer desenho para coisíssima nenhuma. Desenho como respiração, como modo de estar, como filosofia, se quiseres. É nesse sentido que utilizo tanto o Desenho como o Diário Gráfico. Não para atingir um fim, ainda que isso possa acontecer pontualmente numa situação ou noutra, mas, às tantas, o fazer o Diário Gráfico é o reflexo dum modo de estar, em que acredito e em que escolhi o observar, o desenhar, ligado a essa observação, como um modo de estar natural.

Como faço: tenho-me munido dos tais livrinhos, variando um pouco, consoante as marcas que há no mercado, que me parece cada vez mais desperto para este tipo de suporte, havendo uma oferta muito alargada, de qualidades de papéis, ….. Acho que faço muito aquilo que o Leonardo DaVinci dizia para se fazer, nos escritos que ele tem no Tratado de Pintura, onde ele aconselha este tipo de livrinho, que deve estar sempre connosco, e devemos utilizá-lo constantemente, e ele acaba por dizer que será o nosso “verdadeiro mestre”. E eu não fujo muito a esse conselho que ele dá. Utilizo-o muito como suporte para desenhar quando me apetece desenhar à vista, anotar uma ideia em termos de trabalho ou escritos que me ocorram, a mesma coisa com o desenho se ele for de memória ou de imaginação. Não há uma regra à partida estabelecida para a sua utilização. Ele vai sendo, um pouco, o repositório daquilo que vai acontecendo, e que neste momento verifiquei que corria o risco de “largar as coisas” no Diário Gráfico e não as consultar depois, não as ver mais, como uma espécie de “arquivo morto”, e isso é um risco.

Há várias possibilidades de o utilizar, e à medida que uma pessoa vai vivendo também tem formas diferentes de o pegar. Houve uma altura em que eu estava mais preocupado com questões relacionadas com a paisagem, que depois deram uma Exposição, e em que utilizei o Diário Gráfico como um suporte para pesquisa, para recolhas várias de paisagem, fossem elas vistas à medida que eu ia passeando, ou fazia desenhos à vista, mas utilizando o mesmo registo para anotar ideias, que depois são elaborações sobre experiências tidas, não tendo necessariamente a ver com o desenho à vista. Um pouco o que o Zuccari (?) diz sobre o Desenho Interior e o Exterior. São essas duas componentes que depois aparece no Diário Gráfico. O que me tem vindo a preocupar é a velocidade com que eles se produzem, e uma certa inconsciência com que eu os faço, correndo o risco de me esquecer do que faço. O tempo corre e não os consulto, o que é, às tantas, uma coisa que pode ser contrariável, pelo menos o nós estarmos conscientes que é pena utilizá-lo como um repositório para a posteridade. Lembro-me um pouco do caso LeCorbusier, que é um dos exemplos duma pessoa que o utilizou ao longo da vida inteira, e estava muito tempo sem os ver, e por vezes ia, não sei quantos anos atrás, e descobria coisas que depois voltava a retrabalhar. Isto tem pouco a ideia do “eterno retorno”. Tem a possibilidade de nos tornar conscientes que há a possibilidade de haver obsessões, preocupações que são recorrentes, e tornam o Diário Gráfico como modo de nos conhecermos a nós próprios e de verificarmos o modo como fomos construindo um corpo de trabalho que acaba por ser a nossa personalidade.

O Diário Gráfico tem ainda uma componente que acho muito importante, o campo da experimentação. Quando se escolhe o caderno é aquilo que existe na papelaria, e a pessoa até pode ir de propósito buscar um com certas características ou pode ser condicionado com aquilo que existe. E isso tem um lado engraçado, que é a pessoa ser surpreendida pelo próprio suporte e alterar inesperadamente aquilo que tinha ideia em fazer. O Diário Gráfico como campo de experimentação, com os acidentes que poderá também trazer, tanto no que diz respeito aos materiais actuantes, ou à qualidade do próprio suporte é também um factor que eu gosto de explorar. Não tenho as coisas muito preconcebidas à partida, deixo-me levar pelo acidente.