José Maria Sánchez. Espanha. 1958. Designer gráfico

IMAGENS
 


Quando viajo a minha vida muda. Tenho que pensar onde vou comer e dormir, pensar em tudo o que tinha automatizado e receber milhares de estímulos. Torno-me receptivo, noto que o meu espírito se alarga, e os dias parecem muito maiores, já que estão cheios de coisas novas. Costumo pensar: Parece que estou aqui há um mês quando afinal só cá estou a alguns dias. A vida enche-se, como se na rotina normal estivesse vazia. Então penso que sou um nómada falhado, um cowboy transformado em agricultor. E o que mais me apetece é reter este estado de espírito. Por isso faço estes livros: Para reter aquilo que a rotina acabará por destruir ( como quando em criança escrevia o que recordava dos sonhos). Também porque tanto estímulo me faz levantar do sofá e me torna hiperactivo, inclusivamente criativo, e tenho necessidade de fazer como Becket: escrever.

Agora, no sofá, revejo este livro que escrevi e desenhei em Luzón e, perto das palavras e dos desenhos, encho-me de sensações esquecidas e uma mochila começa a crescer-me nas costas. Desenho e escrevo ao mesmo tempo, sobre o caminho, num banco à sombra, nos autocarros, e nos bares. Gosto de desenhar as pessoas no seu ambiente, às vezes estes desenhos ajudam-me a relacionar-me com elas, já que gostam de se ver. Desenhadas. Às vezes querem ver o caderno de outro país que não o seu. Também desenho pequenos detalhes que me chamam a atenção como cartazes, placards, sinais. Detalhes arquitectónicos, comida, animais do zoo, árvores, as cores dos táxis, matriculas, a roupa que as pessoas vestem para ir à missa - e coisas assim, que me chamam a atenção. Costumo usar páginas duplas, páginas para desenhar bares, parques ou outros sítios em que estou sentado comodamente. Escrevo em qualquer sítio para não esquecer as coisas.

Não gosto de fazê-lo no hotel, onde costumo planear o dia seguinte. E tudo termina com a viagem. Não volto a abrir o livro para fazer nada, não me interessa a perspectiva a partir do sítio em que vivo. Ponho-lhe um elástico e guardo-o.

Um livro ajuda-me muito em relação ao seguinte na selecção dos materiais, mas não no que respeita à mão. Acontece-me sempre o mesmo: Começo desajeitadamente e, com os primeiros desenhos vou agarrando a mão. Nos últimos dias de viagem falo com as pessoas enquanto desenho, estou sempre a desenhar e escrevo menos. Na viagem seguinte, começarei outra vez desajeitadamente. O desenho desenvolve-se com a relação. O meu sítio favorito para desenhar é no comboio. .