Álvaro Siza Vieira. Portugal. 1933. Arquitecto

IMAGENS
 
Artigo “Desenhos de Viagem” de Álvaro Siza no livro “Álvaro Siza. Esquissos do Douro”1999. ICEP, Figueirinhas. Lisboa


Nenhum desenho me dá tanto prazer como estes: desenhos de viagem.

Viajar é como prova de fogo, individual ou colectivamente.

Cada um de nós esquece à partida um saco cheio de preocupações, aborrecimentos, stress, tédio, preconceitos.

Simultaneamente perdemos um mundo de pequenas comodidades e os encantos perversos de rotina.

Viajantes íntimos ou desconhecidos dividem-se em dois tipos: admiráveis e insuportáveis.

Um bom amigo sofre verdadeiramente porque o Mundo é grande. Jamais poderá permitir-se – diz – repetir uma visita; abala nervoso, crispado, olhos a saltar das órbitas.

Por mim gosto de sacrificar muita coisa, de ver apenas o que imediatamente me atrai, de passear ao acaso, sem mapa e com uma absurda sensação de descobridor.

Haverá melhor do que sentar numa esplanada, em Roma, ao fim da tarde, experimentando o anonimato e uma bebida de cor esquisita – monumentos e monumentos por ver e a preguiça avançando docemente?

De súbito o lápis ou a bic começam a fixar imagens, rostos em primeiro plano, perfis esbatidos ou luminosos pormenores, as mãos que os desenham.

Riscos primeiro tímidos, presos, pouco precisos, logo obstinadamente analíticos, por instantes vertiginosamente definitivos, libertos até à embriaguez; depois fatigados e gradualmente irrelevantes.

Num intervalo de verdadeira Viagem aos olhos, e por eles a mente, ganham insuspeita capacidade.

Apreendemos desmedidamente; o que aprendemos reaparece, dissolvido nos riscos que depois traçamos.


Prefácio de Norman Foster do livro “Desenhos Urbanos”. 1994. Brigitte Fleck. Basileia

Recentemente, estivemos juntos na mesa de debate de um simpósio para estudantes de Santiago de Compostela onde Álvaro Siza tinha acabado de completar a bela obra do novo museu. Ele estava sentado ao meu lado tendo à sua frente as páginas em branco de um caderno aberto, para esquissos. Enquanto eu falava ou respondia às perguntas que me colocavam, reparava simultaneamente, pelo canto do olho, que as ditas páginas se enchiam com traços. Começou com uma caricatura do presidente da mesa do painel à qual se seguiram, enquanto a noite avançava, cavalos montados por misteriosos cavaleiros que saltavam pelas páginas cheias de rascunhos e diagramas.

As observações que fazia ou as respostas que dava aos estudantes não eram de forma alguma impedidas por este fluido gráfico. Durante esta troca de palavras, foi-me possível satisfazer a minha curiosidade e olhar, discretamente por cima do ombro, para ver com mais pormenor. É interessante o embaraço que sentimos ao espreitar os desenhos do vizinho, por mais cativantes que eles sejam. Provavelmente é a intuição que nos diz que se trata da esfera privada – uma intromissão nos pensamentos que uma pessoa tem em determinado momento.. Sendo assim, eles assumem o carácter de informações confidenciais. Mas por outro, eles revelam muito mais do que aqueles desenhos finais preparados cuidadosamente para serem vistos por terceiros, mas que estão desprendidos do processo criativo que cunha com vida os esquissos iniciais.

Estes pensamentos resurgem quando me debruço no estudo dos cadernos de esquissos de Álvaro que a editora Birkhauser me enviou para eu me preparar para este prefácio. A escolha obriga-nos a contemplar e a voltar constantemente as páginas para trás a fim de se descobrir sempre e com prazer novas surpresas ainda despercebidas.

Estes esquissos possuem uma beleza abstracta e são, simultaneamente, testemunhos primordiais dos projectos que se seguiram. Questiono-me se Álvaro provocou alguma vez o início de um projecto através de um curto circuito movido por um raio de intuição e meses ou mesmo anos mais tarde, tenha redescoberto um velho esquisso há muito esquecido, na busca da semente de uma ideia posteriormente desenvolvida e minuciosos estudos analíticos. Isto aconteceu comigo, tenho a certeza e é a pergunta que lhe vou fazer na próxima vez que nos encontrarmos.