Telmo Castro. Portugal. 1962. Arquitecto. Professor.

IMAGENS
 

Nasci no Porto vivo e trabalho em Matosinhos, Licenciei-me em Arquitectura na Escola Superior Artística do Porto (Ex Árvore) os meus diários gráficos vêem dos tempos de estudante e são companheiros de viagem até hoje. Desenvolvo a minha actividade como Arquitecto e sou professor na Escola Superior Artística do Porto desde 1990 onde lecciono a disciplina de Desenho,

Comecei cedo a rabiscar o papel como todas as crianças. O desenho foi quase sempre o meu personagem imaginário, companheiro de tardes de castigo após actos de rebeldia. Via meu pai nas suas folhas de vegetal “Canson”, os traçados com aquela fantástica caneta de Grafos.

O fascínio foi-se apoderando. Depois a travessia do deserto até a um novo oásis, na Cooperativa Árvore. Aprendi com o Mestre Sá Nogueira e o Escultor José Rodrigues a escalar até aos limites da minha rebeldia, acabei como arquitecto e mais tarde como professor de Desenho Arquitectónico. Esta vivência mantém-me o vício, paredes acabadas de estucar, papel craft, quadros de ardósia, são o meu sustento e treino de comunicação. Nos cadernos ficam os registos possíveis feitos em cima do joelho, encostado a um muro ou em degraus, soleiras e afins, ao sol ou à chuva.

Os cadernos feitos à mão, simplesmente agrafados, colados ou cosidos a fio do norte, chegados ao fim eram mais as folhas soltas desenhadas que as persistentes folhas brancas de papel almaço… o tempo transformou-as em pó.

Os riscos, esses sim passaram a ser memória, e prosperaram desenhando noutros cadernos mais aprimorados e mais perenes, mas sempre a mesma intensidade, desenhos, caligráficos, densos, estruturais, nestes cadernos somos Deuses. Tudo é possível, mesmo o inimaginável. Construímos, concebemos, representamos um microcosmo onde o bem e o mal não consta do dicionário, somos verdadeiramente livres e de livre arbítrio, anarquistas confinados ao prazer da linha, mancha ou ponto.

Ficamos reféns, sedentos, com dores na barriga. É o chamamento compulsivo de quem já não se livra do vício. A serenidade só vem no reencontro das motivações e o desenho marca docemente a folha branca. Estamos despidos, articulados pela rede electrificada de nosso cérebro. Tudo se passa à velocidade da luz. Nos cadernos ficam os fotões congelados a tinta preta.