Isabel Gata Portugal. 1973. Me

IMAGENS
 

Os meus desenhos, registos e outras tentativas de expressão são tão desordenados, sem tempos próprios, que se alteram consoante o material que tenho à mão. A minha eterna desorganização leva a que infinitas vezes perca papelinhos com rascunhos, rabiscos e outras coisas tão adoráveis aos meus olhos, que fico com pena de não os ver mais.

O caderno tem a particularidade de não os perder, continuar a ser desordenada mas sem os perder de vista. Estão em local seguro, compacto e sem folhas soltas. Fico com a certeza que vão estar à minha espera.

No caderno, o erro não assume gravidade, tendo tanta piada como outro desenho qualquer, podemos dizer até que nem sequer é erro, é sim uma nova abordagem. E está num sítio tão particular que só é ajuizável para o próprio e para quem nós deixarmos ver.

São também, muitas vezes, pormenores que quero voltar a ver, a fazer, a utilizá-los para outro trabalho.

Não coloro o que desenho, só quando, ou me dá na veneta e faço um apontamento de cor ou, por mero acaso, o café se espalha numa folha e aproveito as manchas.

Não tenho carro, ando de transportes públicos, gosto de andar, de passear com o meu filho, de ir a cafés e passar lá horas. E o que há de melhor do que um caderno A5 para poder desenhar quando me apetecer?

Quando experimento outros tamanhos é sempre um desastre. Os blocos grandes caem no chão. Já tentei, com esforço, desenhar no metro ou numa esplanada, com o bloco em cima dos joelhos, mas as folhas espalham-se e tudo cai e voa.

São memórias, são amigos, são pensamentos daquele dia, são as mãos que pegam na caneta e ficam sem certeza de parar, são, provavelmente, os meus gestos a bailar várias danças de salão.

Posso dizer isto tudo porque, de facto, o meu companheiro íntimo, o caderno, é que sabe o que lhe vai lá dentro, eu sou só a espia que ponho a pata quando sou chamada.

Lisboa, Setembro de 2005