Ivo. Portugal. 1979. Pintor

IMAGENS
 

conversa gravada

Tive um professor na escola António Arroio que me incutiu essa ideia do Diário Gráfico. A finalidade era que nos soltássemos o mais possível no traço. Era uma disciplina que nos podia auxiliar no nosso trabalho, que devíamos fazer constantemente, tê-lo sempre à mão. Por não estar à venda, permite ser um registo de uma grande liberdade, e que acaba por ser o diário da tua vida, não por palavras, mas por imagens, ou por ambas.

Ao longo dos anos fiz sempre em blocos com argolas, papel guarro , de cem folhas. Mantinha, como princípio, não arrancar nenhuma folha, todos os desenhos são válidos. Há um dia que é uma chatice e outro que é pleno, mas ambos fazem parte da tua vida e a materialização dessa vida é um todo. Assim, mantinha sempre os cem desenhos. Depois comecei a frequentar os bares e cafés da zona do Bairro Alto e do Cais-do-Sodré, especialmente um, o Antiquário-Café. Tinha dezasseis anos, pintava há cinco, já me sentia um pintor e estava desejoso de ter um atelier, e este café adoptei-o como o primeiro espaço de atelier. Ia lá religiosamente todos os dias e passava lá cinco ou seis horas. Sempre a desenhar no Diário Gráfico. E, por isso, retratam muito a vivência daquele espaço, quer o registo do próprio espaço, quer conversas que aconteciam, quer as pessoas que entretanto fui conhecendo. Eram os modelos. Eram pessoas mais velhas que eu que me satisfaziam a fome de experiência de vida, que de certa forma colmatava aquela que eu sentia na António Arroio. As histórias, as vivência, cada palavra, eram absorvidas e registadas no Diário Gráfico.

A seguir aparecem os ateliers de S.Paulo, onde começo o trabalho de atelier e os Diários Gráficos estagnaram durante um tempo. Voltaram na minha ida para o Brasil. Ficam a partir daí associados à Viagem. Transformam-se em “ateliers ambulantes”. Esta ideia já vem de trás. Tinha uma mochila gigante com frascos de café, de canela, de pimentão vermelho, aguarela, tinta-da-china, pastéis secos e de óleo, rotrings , letras decalcáveis. Punha isto tudo em cima duma mesa e facilmente o espaço ficava marcado por mim. Trazer às costas e em qualquer lugar, montar e desmontar, e isso associa-se à viagem.

A ideia de Diário Gráfico está ligado ao exterior, é sempre uma visão exterior. Estás a trabalhar fora do teu umbigo, a absorver coisas do exterior. Nunca tive vontade de fazê-lo no atelier. Quando ando em tempo de o fazer, mesmo em Lisboa, ando sempre com ele, não saio à rua sem ele. É o tal conceito de atelier ambulante. E isso puxa-te para saíres, para ires ter com amigos e em qualquer local é passível de desenhares. O Diário Gráfico é assim, associado à ideia de exterior, fora de mim, do atelier, trabalhos abertos à informação vinda do exterior, de outras fontes: uma conversa que ouves no café, uma música que está a tocar, uma imagem que vês a passar. Coisas que não têm acesso quando estás no atelier.

Apercebeste-te que tanto em viagem como em Lisboa é igual. Em Lisboa, quando tens o Diário Gráfico, vês a cidade com olhos de estrangeiro, quando não o tens, bebes um café como habitante da cidade. Se o tiveres, desenhas o prédio, a pessoa que está em frente, ou outro tipo de desenho sem ser de observação, mas esse momento é como ser estrangeiro na tua própria cidade. Por isso o conceito de viagem está sempre presente. O que muda são as coisas representadas, como os coqueiros no Brasil, mas o espírito é o mesmo.

Na Índia já foi diferente. O Diário Gráfico, um único e também de cem folhas, abarca todo o tempo que lá estive (cerca de um ano). Teve pausas grandes, mas foi feito ao longo daquele tempo todo.

O aspecto mais importante do Diário Gráfico é ser uma espécie de “cápsula do tempo”. Ao ver os antigos, já não me lembro de ter feito alguns dos desenhos, mas és remetido para aquele tempo, mas de uma forma específica, isto é, de uma forma única que não é equivalente com nenhum outro tipo de registo, por exemplo a escrita. Aqueles desenhos ficam impregnados de quem tu eras, com quem te relacionavas, estão cheios duma energia, tornam-se numa coisa “muito preciosa” para ti. Enquanto os fazes tens a premissa de que não os vais vender, e então aquele espaço transforma-se num espaço de liberdade, de lugar íntimo. Só os teus amigos é que o vão ver, não são mostráveis, são mantidos numa espécie de arca. Raramente os consulto, mas quando o faço tenho um misto de ser a primeira vez que os vejo e de ser reportado ao momento que os fiz.

Acho que a essência mais específica do Diário Gráfico é ser um objecto que se pode pegar, que tem peso, que se pode folhear, havendo uma relação muito íntima com quem o vê, que é só uma pessoa de cada vez, quase como se quem o segure colocasse um “capacete virtual”. É o próprio que passa as folhas e que decide quanto tempo observa cada desenho.

Recentemente o Diário Gráfico transformou-se noutra coisa. Uma ideia que já vinha deste último feito na Índia e que, pela primeira vez, surge a vontade de mostrá-lo publicamente. O último que fiz, fi-lo num livro de capa dura e está contido numa embalagem. Surge o conceito de embalagem versus conteúdo. Pela primeira vez, também, o Diário Gráfico dá-me pistas para o meu trabalho de atelier. O próprio trabalho poder ser reciclado, posso voltar atrás e retrabalhar coisas já feitas. O Diário Gráfico assume uma carga de laboratório, onde podes voltar sempre. Deixa de ser um trabalho separado do de atelier, fundindo-se num só.

Aqui aparece o conceito de Livro de Artista. Podes pensar que o Diário Gráfico pode ser reproduzido, transformado em livro que chega às mãos de outras pessoas fora do teu círculo. A ideia-base é a mesma: a associação à viagem, à abertura ao exterior, mantendo essa carga intimista com que é feito, devido às suas dimensões, ao ser transportado pelo próprio, ao absorver vários espaços, várias pessoas; por outro lado é um trabalho mais conceptual: o Diário Gráfico como uma “semente” que se vai desdobrar, reproduzir. Serve para eu próprio perceber do que estou a falar, de quais as minhas intenções, do que ando a “matutar”. Simultaneamente vai sendo feito o trabalho de atelier. O Diário Gráfico é o fio condutor de todo o trabalho e vai estar disponível às pessoas, não só o original, mas algumas reproduções, que pode ser um catálogo para a exposição. É a passagem do Diário Gráfico enquanto objecto virado para o exterior e só visto por pessoas próximas, para o Diário Gráfico que, mantendo esse cunho intimista ao nível da execução, pode, no entanto, ser visto e adquirido por outros. Transforma-se, assim, num objecto plástico, sai do teu cofre pessoal, dos teus arquivos de memória e vem para o exterior e assim, volta a tocar na questão que me ocupa agora, da embalagem e do conteúdo, o que está dentro e o que está fora, qual das coisas tem mais importância, qual chega primeiro, qual dá o “murro no estômago”.