Joćo Rebolo. Portugal. 1956. Arquitecto. Professor

IMAGENS
 

Algum tempo atrás comecei a desenhar com maior regularidade, num misto de prazer e de teimosia. Ao desenhar abria espaço à fantasia, ao intimismo, e à satisfação criativa. Várias experiências de procura interior, de imaginação livre, de espontaneidade, resultaram em desenhos soltos ou em blocos, do tipo diário gráfico.

Metodicamente decidi reaprender a desenhar, sobretudo o corpo humano, mas também objectos e fantasias várias. Mas ao mesmo tempo queria desaprender, criando gestos mais pessoais, situações originais, expressivas, inesperadas e divertidas.
De um modo quase mecânico e automático ocupava a folha de papel obsessivamente, com sequências caóticas ou absurdas, quase sem deixar espaços em branco. Qualquer coisa entre a compulsão e certa angústia de fazer, e a procura de uma poética distante, figurativa, contemplativa.

Os Diários Gráficos que fiz nesta altura são muitas vezes registos de nomadismos interiores, gestualidades furiosas, raras vezes registos de viagens. A procura do acaso, do imediatismo, e do gozo, evitando raciocínios e conceitos, raramente tinha por tema o real. O desenho surgia da pura vontade de fazer, sendo muitas vezes uma ficção, ilustração quase sem tema ou objecto específico.

Para desenhar usei vários tipos de art-pen, também a esferográfica, seringas de plástico a tinta-da-china, cujo traço mais grosso cria contrastes interessantes com o risco fino das canetas. Nos blocos de tipo diário gráfico, A5 em média, procurei tirar partido de um certo secretismo que o pequeno formato sugeria, à semelhança de um diário antigo, formatado em desenho.